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quinta-feira, 28 de março de 2013

A COMPOSIÇÃO DA PINTURA - Por Leonardo Da Vinci

Uma aula com Da Vinci.


A COMPOSIÇÃO DA PINTURA 
Por Leonardo da Vinci

COMO SE REPRESENTA UMA TEMPESTADE 
     Para formar uma ideia justa duma tempestade, devemos considerar atentamente os seus efeitos.  Quando o vento sopra violentamente por sobre o mar ou terra, desloca e leva consigo tudo oque não está firmemente fixo à massa geral.  As nuvens devem parecer dispersas e com rotas arrastadas na direção e conforme a força do vento, e confundidas com nuvens de areia  que se levantam da praia; devem representar-se ramos e folhas de árvores, como impelidas pela violência do vento, juntamente com outras inúmeras e leves substâncias, espalhadas no ar. As árvores e erva devem estar curvadas para o chão, como que cedendo à carreira do vento. Os ramos devem estar torcidos fora do seu natural, com as folhas voltadas e emaranhadas. 
     Quanto ás figuras dispersas na pintura, devem algumas aparecer arrojadas ao chão, tão envolvidas nos seus mantos e cobertas de pó que mal possam distinguir.  Das que ficaram de pé, umas devem estar abrigadas e segurando-se com força por de traz de algumas grandes árvores, para escaparem à mesma sorte; outras inclinadas para o chão, protegendo a cara do pó, com as mãos, os cabelos e roupas voando para o ar à mercê do vento.
     As grandes e tremendas vagas do mar tempestuoso devem estar cobertas de espuma, cujas partes mais tênues sejam levadas pelo vento, como se fossem uma névoa intensa, misturada com o ar. 
     Os navios que se vejam, devem ser representados com o cordame arrebentado e as velas rotas. Uns com mastros partidos, derrubados e o casco todo adornado entre as vagas alterosas. Parte da tripulação aparecerá como chamando em alto grito por socorro e agarrada aos restos do desmantelado navio. As nuvens parecerão atiradas por tempestuosos ventos de encontro aos cumes de altas montanhas, envolvendo-as, quebrando-se como ondas contra uma costa de rochedos. A atmosfera será representada medonhamente obscurecida pelo nevoeiro, pelo póe pelas grossas nuvens. 

NOTA: - Como podemos observar, Leonardo Da Vinci, antes de executar uma obra, fazia uma espécie de roteiro a ser seguido. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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                                              COMO COMPOR UMA BATALHA
     Primeiro a atmosfera deverá apresentar uma mistura confusa de fundo proveniente das descargas de artilharia e mosquetaria, e do pó levantado pelos cavalos dos combatentes; Observaremos que o pó, que sobe a terra, é pesado, mas no entanto, em razão das suas ínfimas partículas, é facilmente impelido para cima e misturado com o ar; Apesar disso, cai naturalmente de novo e só as suas partes mais sutis é que alcançam alguma considerável altitude, tornando-se na parte mais alta, tão fino e transparente, que quase parece da cor da atmosfera.
      A fumaça assim misturada com a atmosfera cheia de pó, forma uma espécie de nuvem negra, no cimo da qual ela se destaca do pó por uma  expressão azulada, pois o pó conserva mais a sua cor natural. Do lado de onde vem a luz, esta mistura de ar, fumaça e pó, parecerá muito mais brilhante do que do lado oposto. 
     Quanto mais envolvidos estiverem os combatentes neste tumultuoso nevoeiro, menos distintamente visíveis serão, e as suas luzes e sobras serão mais confusas. Tinjamos duma cor avermelhada, os rostos e corpos dos mosqueteiros e todos os objetos próximos, mesmo a atmosfera ou uma nuvem de pó; Em resumo tudo quanto os rodear. esta tinta avermelhada irá desvanecendo à medida que os objeto estiverem afastados da causa inicial.
     O grupo de figuras que aparece a certa distância entre o espectador e a luz, formará uma massa escura sobre um fundo claro; e as suas pernas serão tanto mais indecisas e obscuras quanto mais próximo do solo, onde o pó é mais pesado e denso. 
     Se quisermos representar alguns cavalos perdidos, galopando fora do corpo principal, introduziremos também uns pequenos rolos de pó, tão separados uns dos outros  como os saltos do cavalo, e estes pequenos rolos ir-se-ão tornando mais fracos, raro e desvanecidos,  à   proporção que o cavalo os vai deixando para trás. Por consequência aquele que estiver mais perto dos pés do cavalo, será o melhor determinado, mais pequeno e mais denso de todos. 
     A atmosfera deverá apresentar-se atravessada em todas as direções por frechas; umas subindo, outras descendo e outras voando horizontais. As balas dos mosquetes, conquanto se não vejam, serão indicados na sua trajetória por um rasgo de fumaça, que se destaca dentre a confusão geral. As figuras no primeiro plano deverão teros cabelos cobertos de pó, assim como as sobrancelhas e todas as partes suscetíveis de o reter. 
     O partido vencedor correrá para frente, os cabelos e coisas leves voando ao vento, as sobrancelhas carregadas e o movimento de todos os membros propriamente combinado; por exemplo, ao atravessar o pé direito o braço esquerdo deverá vir à frente também. Se quisermos representar algum deles caindo, marcaremos o vestígio da queda no pó coberto de sangue coagulado e escorrendo; e onde  a terra estiver menos impregnada de sangue, deixaremos ver os sinais dos pés dos homens e cavalos que por ali passaram. Representaremos alguns cavalos arrastando os corpos dos seus cavaleiros e deixando atrás de si um sulco aberto pelo corpo assim rojado. 
     As fisionomias dos que vão sendo vencidos deverão aparecer pálidas e abatidas. As sobrancelhas levantadas e muitas rugas pela testa e pelas faces.  As suas narinas um pouco dilatadas, formando várias rugas arqueadas terminando nos cantos dos olhos, rugas que são produzidas pelo abrir e levantar das narinas. O lábio de cima levantado, deixando ver os dentes. As bocas abertas e exprimindo violentas lamentações. Poderá um ficar caído no chão ferido, esforçando-se por amparar o corpo com uma mão e tapando os olhos com a outra, de palma voltada para o lado do inimigo. Outros fugindo e com as bocas abertas parecendo gritar. Por entre as pernas dos combatentes o chão deve estar juncado de toda a qualidade de armas como escudos partidos, lanças, espadas, etc. Devemos apresentar diversos cadáveres, uns completamente cobertos de pó, outro só em parte; o sangue que parece sair imediatamente da ferida, deverá ter a sua cor natural e escorrer em fio tortuoso até que, misturando-se com o pó, forme uma espécie de lama avermelhada. Alguns poderão estar na agonia da morte; os dentes cerrados, os olhos desvairadamente fitos, os punhos fechados e as pernas em contorcidas posições. Outros aparecerão desmaiados e batidos pelo inimigo, mas ainda lutando a murro e a dentes, e procurando tirar uma terrível, ainda que inútil, desforra. Poder-se-á também representar um cavalo perdido sem cavaleiro, fugindo em desordenada aflição; a crina voando ao vento, pisando debaixo das patas tudo o que lhe aparece na frente e causando imenso mal. Poder-se-á também pintar um soldado ferido, meio caído no chão e tentando cobrir-se com o escudo, enquanto um contrário inclinado sobre ele procura dar-lhe o golpe final.  Vários cadáveres amontoar-se-ão debaixo dum cavalo morto.  Alguns dos vencedores, como que parando de combater, estarão limpando a cara do pó misturado com o suor e água dos olhos. 
     O corpo de reserva representar-se-á avançando alegre, mas cautelosamente; as sobrancelhas contraídas fazendo pala das mãos para observar os movimentos do inimigo, por entre as nuvens de pó e fumaça e parecendo todos atentos às ordens do comandante. Poderemos também representar o comandante, brandindo o seu bastão, avançando e apontando para o sítio aonde eles são precisos. Pode-se também introduzir um ribeiro com cavalos a atravessá-lo, chapinhando a água para o ar, e cobrindo toda a terra em volta de água e espuma. Não se deve deixar um só sítio sem sinal de sangue e carnificina. 
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NOTA: Observem como Da Vinci era minucioso. Ele prestava atenção aos mínimos detalhes para só então definir a cena que iria pintar. Agia como um arquiteto projetando sua obra antes de executá-la. 
Nicéas Romeo Zanchett 


                     REPRESENTAÇÃO DE UM ORADOR E DO SEU AUDITÓRIO
                                                     Por Leonardo da Vinci 
              Se tivermos de representar um homem a falar a uma grande assembléia, teremos de considerar o assunto do discurso e adaptar a sua atitude a esse assunto. 
              Se o orador pretende convencer é preciso demonstrá-lo pelo gesto. Se estiver dando uma explicação deduzida de diversos fatos, deverá meter um dedo da mão esquerda entre os dois da direita, e conservar os dois encolhidos, e voltar a cara para o auditório com a boca entreaberta parecendo falar. Se estiver sentado deverá parecer que se vai levantar um pouco, e ter a cabeça inclinada para a frente. 
              Mas se for representado de pé, terá o peito e a cabeça inclinada para a frente para o lado do auditório. Este deverá parecer silencioso, atento, com os olhos fitos no orador em sinal de admiração. Deverá haver alguns velhos com as bocas muito fechadas em sinal de aprovação e os lábios apertados de maneira a fazerem rugas aos cantos da boca e nas bochechas, e na testa ao levantar as sobrancelhas, como que assombrados de espanto. Uns sentados, com as mãos entrelaçadas em volta dos joelhos; outros com uma perna por cima da outra e sobre ela uma mão suportando o cotovelo, e a outra segurando o queixo, coberto de barba venerável. 
                                                  DOS GESTOS DEMONSTRATIVOS 
              A ação pela qual numa figura indica qualquer ponto próximo, quer no sentido de tempo quer na situação, deve ser expressa pela mão ligeiramente afastada do corpo. Mas se esse mesmo ponto estiver muito afastado, a mão deve também estar muito retirada do corpo e a cara da figura voltada para aquela a quem o está a apontar. 
                      SOBRE A ATITUDE DOS CIRCUNDANTES PERANTE ALGUM 
                                               ACONTECIMENTO SENSACIONAL
               Todos aqueles que assistem a um acontecimento digno de menção experimentam a sua admiração, mas de diferentes maneiras como quando a mão da justiça pune um malfeitor.  Se o assunto for um ato de devoção, os olhares de todos os presente estarão fitos na direção do objeto da sua adoração, secundados por vários movimentos de piedade feitos com os outros membros. 
                Se for um caso para rir ou então um caso que inspire compaixão e provoque lágrimas, não será necessário que todos tenham os olhos voltados para o objeto, pois exprimirão os seus sentimentos por diversas maneiras; e será bom apresentar diversas figuras reunidas em grupos afim de se regozijarem ou lamentarem juntas. Se for um acontecimento horrível, os rostos dos que vão fugindo a tal vista exprimirão um grande medo, por meio de vários movimentos, que serão explicados no tratado sobre movimentos.
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NOTA: Esta aula de Da Vinci nos mostra como ele trabalhava para compor uma obra. Era, sem dúvida, um grande observador das atitudes das pessoas e suas maneiras de expressão. Naquele tempo não havia não havia fotografia e Da Vinci costumava desenhar - de forma rápida - todas as pessoas e o cenário que lhe interessava para a futura composição artística; nada escapava ao seu olhar atento e julgador que fizeram dele o grande artista, hoje reconhecido como um dos maiores gênios que a humanidade teve.  Leonardo considerava que o desenho era uma espécie de projeto da obra a ser realizada; hoje, infelizmente, muitos artistas não dão valor ao desenho; alguns nem sequer sabem desenhar. 
Nicéas Romeo Zanchett 





BREVEMENTE CONTINUAÇÃO.....     

   
     



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