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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O QUE CUSTA O PODER E O QUE TRAZ A FAMA -

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Por Emílio Souvestre - (Um filósofo nas Trapeiras).
                   
              12 de Julho, 7 horas da noite.  - Quando entrava em casa esta noite vi de pé no limiar duma porta um velho que pela atitude e as feições me fez lembrar meu pai; o mesmo sorriso irônico, o mesmo olhar quente e profundo, a mesma nobreza no porte da cabeça e o mesmo abandono de atitude. 
               Isto levou o meu pensamento para o passado. Pus-me a rever os primeiros anos da minha vida e a lembrar-me das conversas desse guia que Deus me deu na sua clemência, e que na sua severidade demasiado cedo me retirou. 
                Quando meu pai me falava não era só para por em contato os nossos dois espíritos por uma troca de idéias; as palavras continham sempre um ensinamento. 
                Não que ele o procurasse fazer sentir! temia tudo que tivesse a aparência de lição. Costumava dizer que a virtude adquiria amigos apaixonados, mas nunca tinha discípulos; por isso não s pensava em ensinar o bem, contentando-se em semear os germes, certo de que a experiência os faria desabrochar. 
                Quanto grão assim caído num canto do coração por muito tempo esquecido, deita de repente a sua haste e dá espiga! Riquezas postas em reserva numa época de ignorância, das quais não conhecemos o valor senão no dia em que precisamos delas. 
                Entre os contos com que animava os nossos passeios ou os nossos serões, há um que me ocorre neste instante à mente, sem dúvida porque chegou a hora de lhe deduzir a lição implícita. 
                Colocado desde os doze anos em casa dum desse negociantes colecionadores que se dão a si mesmos o nome de naturalistas porque expõem a natureza de vidros para vender o retalho, meu pai levara sempre uma vida pobre e laboriosa. Sempre em pé antes do amanhecer, ao mesmo tempo marçano, caixeiro, operário, devia ele só fazer todos os trabalhos dum comércio de que o seu patrão era o único a recolher os lucros. Para se dizer a verdade este tinha uma habilidade especial para fazer valer o trabalho dos outros. Incapaz de produzir qualquer coisa, ninguém sabia vender melhor do que ele; as suas palavras eram uma rede, na qual o freguês se achava preso antes de se dar por isso. Quanto ao mais, só era amigo de si mesmo, considerava o produtor como seu inimigo, o comprador como sua conquista e explorava a ambos com essa inflexível persistência que a avareza ensina. 
             Escravo toda a semana, meu pai não era senhor de si senão aos domingos; o senhor naturalista, que ia passar o dia na casa duma prima velha, dava-lhe então liberdade com a condição que jantaria fora e à sua custa. Meu pai levava secretamente uma côdea de pão que escondia na sua caixa de herborização, e saindo de Paris de madrugada ia internar-se no vale de Montemorensy,  nos bosques de Meudon ou nas margens do Marne.  Embriagado pelo ar livre e pelo cheiro penetrante da seiva em ação e pelo perfume da madresilva, caminhava até que a fome e o cansaço se fizessem sentir; então assentava-se na borda dum matagal ou nas margens dum rio; o agrião, os morangos silvestres, as amoras das silvas ofereciam-lhe sucessivamente um festim rústico. Colhia algumas plantas, lia umas páginas de Florian, que principiava a estar em voga, de Gessner, que acabava de ser traduzido ou de João Jacques de quem possuía três volumes desirmanados. O dia passava-se nestas alternativas de atividade e de repouso, de buscas e de devaneios, até que o sol declinando lhe anunciava que era tempo de retomar a estrada da grande cidade, onde chegava com os pés magoados e empoeirados, mas com o coração para toda a semana. 
              Um dia que se dirigia a Viroflay, encontrou junto ao limite do bosque um desconhecido ocupado a apartar as plantas que acabava de herborizar. Era um homem já velho, de rosto honesto, mas com os olhos um pouco encovados, tendo no olhar qualquer coisa de melancólico e tímido. Vestia um casaco de pano castanho, colete cinzento, calças pretas, meias de lã, e trazia debaixo do braço uma bengala de castão de marfim. A sua aparência era a dum burguês retirado dos negócios e vivendo dos seus rendimentos, um pouco acima da mediocridade dourada de que fala Horácio. 
              Meu pai, que respeitava muito a velhice, cumprimentou-o delicadamente ao passar; mas neste gesto deixou cair uma planta que tinha na mão. 
              O desconhecido ao baixar-se para a apanhar reconheceu-a.
              - É uma Dentaria heptaphillus, disse; ainda não tinha visto nenhuma nestes bosques; o senhor achou-a perto daqui? 
heptaphyllus
               Meu pai respondeu que se encontravam em abundância no alto da colina para os lados de Sévres assim como o grande Laserpitium. 
               - Também! repetiu o velho arrebatado. Ah! vou procurá-las; apanhei algumas outrora para os lados de Robaila... 
               Meu pai propôs-lhe levá-lo lá. O desconhecido aceitou com reconhecimento e apressou-se a juntar as plantas que tinha apanhado; mas, de repente pereceu tomado de escrúpulos; fez observar ao seu interlocutor  que o caminho que seguia era a meia encosta e que se dirigia ao castelo das Princesas Reais em Bellevue; que, atravessando o cimo, por conseguinte do seu caminho, e que não era justo incomodar-se assim por um desconhecido. 
               Meu pai insistiu com a afabilidade que lhe era habitual; mas quanto mais solícito se mostrava, mais obstinado na recusa se tornava o velho; pareceu mesmo a meu pai que a sua boa vontade inspirava desconfiança. 
               Decidiu-se então a só mostrar o caminho ao desconhecido a quem cumprimentou; em breve o perdeu de vista.
               Passaram-se muitas horas e ele já não pensava no seu encontro com o velho. Tinha chegado ao castanhal de Chaville, onde relia o último volume de Emílio estendido na relva duma clareira. Estava tão completamente absorto no encanto da leitura que cessara de ver e de ouvir o que o cercava. Com as faces afogueadas e os olhos úmidos relia em voz baixa uma passagem que o tinha particularmente  impressionado. 
               Uma exclamação dita mesmo a seu lado arrancou-o do seu êxtase; levantou a cabeça e viu o burguês que já encontrara na encruzilhada de Viroflay. 
              Estava cercado de plantas que tinha apanhado, o que parecia tê-lo posto de bom humor. 
              - Mil agradecimentos, senhor, disse a meu pai, encontrei tudo que me indicou e devo-lhe um passeio encantador.
              Meu pai levantou-se,respeitosamente, dando uma resposta afável ao velho. O desconhecido parecia completamente domesticado, e foi ele próprio que perguntou se oseu jovem confrade não tensionava tomar a estrada de Paris. Meu pai respondeu afirmativamente e abriu a sua caixa de lata para lá guardar o livro. 
               O desconhecido perguntou-lhe, sorrindo, se podia sem indiscrição, saber o título do livro. Meu pai respondeu-lhe que era Emílio de Rousseau.      
               O desconhecido tornou-se logo muito sério. 
               Caminharam por algum tempo ao lado um do outro, meu pai expressando com o calor de uma emoção vibrante ainda tudo que aquela leitura lhe tinha feito sentir, e o seu companheiro sempre frio e silencioso. O primeiro gabava a glória do grande escritor genovês, que o seu gênio tinha feito cidadão do universo; exaltava-se falando desse privilégio dos sublimes pensadores que dominam apesar do espaço e do tempo, e recrutam entre todas as nações, um povo de súditos voluntários; mas o desconhecido interrompeu-o de repente. 
               - E tem certeza, disse com doçura, de que Jean Jacques não trocaria essa celebridade que o senhor parece invejar-lhe, pela sorte de um daqueles lenhadores que vivem naquelas cabanas que vemos fumegar além? Para que lhe serviu a fama senão para lhe acarretar perseguições?  Os amigos desconhecidos que os seus livros lhe granjearam contentam-se em abençoá-lo nos seus corações, enquanto os inimigos declarados que esses livros lhe fizeram o perseguem com as suas violências e as suas calúnias! O bom êxito lisonjeia o seu orgulho! mas quantas vezes não foi ferido pela sátira! Creia-o, o orgulho humano parece-se sempre com a sibarita que a dobra duma folha de rosa impede de dormir. A atividade de um espírito vigoroso de que o mundo aproveita, volta-se sempre contra aquele que a possui. Fá-lo exigir mais da vida; o ideal que procura descontenta-o constantemente da realidade; parece-se com um homem que tivesse uma vista demasiado aguda e que visse sempre nos mais belos rostos os sinais da rugas. Não lho falo das tentações mais fortes, das quedas mais profundas. O senhor disse que o gênio era uma realeza! Mas qual é o homem de bem que não tem medo de ser rei? que não sente que o muito poder é, com a nossa fraqueza e os nossos ímpetos, preparar-se para muito errar?  Creia-me, senhor, não admire nem inveje o desgraçado que escreveu esse livro; mas sim lastime-o, se tem um coração sensível! 
               Meu pai, admirado da vivacidade com que o desconhecido pronunciara as últimas palavras, não sabia que responder. Nesse momento chegaram à estrada que ligava o castelo de Meudon ao de Versalhes. Passou uma carruagem; as senhora que iam nela, vendo o velho, deram um grito de surpresa, e debruçando-se repetiam: - É João Jacques! É Rousseau! 
               Depois a carruagem desapareceu. Meu pai estava imóvel, olhos esgazeados, os braços estendidos, estupefato e desorientado. Rousseau, que estremecera ouvindo pronunciar o seu nome, voltou-se para ele.
               - Vê, disse-lhe com a amargura misantrópica que os seus últimos desgostos lhe tinham dado, João Jacques nem mesmo se pode esconder; objeto de curiosidade para uns, de malevolência para outros, e para todos uma coisa pública que se aponta o dedo. E se fosse só sofrer a indiscrição dos ociosos! Mas logo que um homem tem a infelicidade de se criar um nome, pertence a todos; todos investigam a sua vida, contam as suas mínimas ações, insultam os seus sentimentos; torna-se semelhante a esses muros que todos os transeuntes podem manchar com uma inscrição injuriosa. Dirá talvez que eu mesmo animei essa curiosidade publicando as minhas Memórias. mas foi o mundo que me obrigou; espreitava-se a minha casa pelas fendas e caluniavam-me; abri portas e janelas para que me conhecessem, pelo menos, como realmente sou. Adeus, senhor, lembre-se sempre que viu Rousseau para saber o que vale a celebridade. 
              Nove horas. - Ah! compreendo hoje a narração de meu pai! Contém a resposta a uma das perguntas que me dirijo ha uma seman. Sim, sinto agora que a glória e o poder são dons que se pagam muito caros, e que, se fazem ruído em volta da alma, são a maior parte das vezes, como diz Madame de Stael, um luto brilhante da felicidade.
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BREVE BIOGRAFIA
           Emílio Souvestre, foi um literato francês que nasceu em Morlaix a 15 de Abril de 1806 e morreu em Paris  a 5 de Julho de 1854. Formou-se em jornalismo e ganhou fama pelos seus esboços da Bretanha: Les Derniers Bretons; Foyer Breton; Um Philosofhe Sous les Toits, que foi coroado pela academia em 1851. Escreveu também em 1854 uma obra em dois volumes: Causeries Historique et Littetaires e muitas peças de teatro. 
Nicéas Romeo Zanchett  
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             Um verdadeiro amigo dá quando tem de sobra, mas a mulher dá mesmo quando pode lhe fazer falta, porque elas tem o gênio da caridade. 
             Mesmo sendo generoso, um homem só dá o seu dinheiro, entretanto a mulher tem a capacidade de dar o seu dinheiro e seu coração. A caridade feminina renova todos os dias o milagre da bondade, da fraternidade e do amor ao próximo. É por essas e outras mil razões que amo profundamente as mulheres.
Nicéas Romeo Zanchett 


terça-feira, 4 de novembro de 2014

A TERRA ESTÁ MORRENDO - Por Nicéas R. Zanchett


                  A superpopulação Mundial precisa de muito alimento. Assim, destroem as florestas por plantações industriais e pastagem para o gado e outros animais de corte.  Além disso a forma de vida que incentiva o consumismo, só visa o lucro rápido e fácil. Mas as consequências já estão aparecendo e são dramáticas; segundo os cientistas são irreversíveis tanto para a humanidade como para os ecossistemas. 

                   Nas últimas três décadas foram sendo registrados aquecimentos crescentes de toda a superfície da Terra. Isto não acontecia até 1850. No Hemisfério Norte o período mais quente dos últimos 800 anos aconteceu entre 1983 e 2012, data dos últimos cálculos. No período de 1880 a 2012 o aquecimento médio global combinado da Terra e dos oceanos foi de 0,85 graus Celsius.
                   O problema fica mais evidenciado na Groenlândia e na Antártica, cujo aumento no nível do mar foi de 19 centímetros no período de 1991 a 2012. É um número bem maior do que o registrado nos últimos dois milênios.

                   O relatório dos pesquisadores indica, também, que está havendo uma acidificação dos oceanos em 26%, comprometendo todo aquele ecossistema; isso aconteceu por causa da apreensão de gás carbônico da atmosfera. 
                   No período de 2000 a 2010, para gerar energia se queimou muito combustível fóssil e eles  foram responsáveis por 47% de toda a emissão global de gases e criaram o efeito estufa artificial que já não estamos conseguindo controlar. O planeta está se tornando uma estufa insuportável. 

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Faça sua parte. Antes de comprar alguma coisa, pergunte se não pode viver sem ela. E sobre tudo, evite ter filhos.

Nicéas Romeo Zanchett 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O DEUS SOL DETERMINA O MEIO AMBIENTE


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                Toda a vida, vegetal ou animal, é essencialmente energia. Em nosso planeta essa energia, que produz a vida e garante a sua manutenção, vem do sol. Sua energia aquece mais o equador do que os pólos; o desequilíbrio é compensado pelos movimentos do ar.
                 O sol é apenas mais uma estrela  entre os milhões de sois que queimam a Galáxia. O nosso sol tem um diâmetro de aproximadamente 1.390.473 quilômetros de diâmetro e temperatura acima de 6.000 graus centígrados, na superfície. Ele está a cerca de 150 milhões de quilômetros da Terra
                 Durante milhares de anos, boa parte das relações entre o Sol e a Terra não eram conhecidas. Foi no século XVI, quando Copérnico formulou a teoria de que era a Terra que girava em torno do sol e não o contrário, que passamos a compreender a importância e domínio que o Astro Rei tem sobre nossas vidas. Era muito difícil explicar as estações do ano, causadas por uma inclinação de 23,5 graus do globo terrestre. Ele às vezes expõe ao Sol o Hemisfério Norte, outras vezes o Hemisfério Sul. Comparado a outras estrelas, para os padrões humanos, está muito longe da Terra. 
                  É no interior da atmosfera  que ocorrem os fenômenos meteorológicos que, por sua vez, configuram o clima geral da Terra. A atmosfera é um sistema incrivelmente complexo e funciona como um envelope de gases da Terra. Como sabemos, a atmosfera é invisível e feita de gases, ou seja, matéria que não se pode pegar com as mãos.  Seu peso gira em torno de 5.500 bilhões de toneladas e 90% dela está abaixo de 10 quilômetros. Por ser muito rarefeita pode elevar-se até 1.000 quilômetros de altitude. Ela é composta de uma mistura principalmente de nitrogênio, que perfaz 78,8% do volume total, e oxigênio, com 20,95% do total. 
                  A atmosfera não é limpa, como muitos imaginam; há muitos outros componentes gasosos, como argônio, neônio, hélio, criptônio, xenônio e hidrogênio, além de diversas partículas em suspensão, como fumaça, sal, polens, areia e cinzas vulcânicas. Com exceção do orgônio (0,9%), suas quantidades são minúsculas. Entretanto nela existem componentes muito prejudiciais à saúde, tanto animal como vegetal. É o caso do dióxido de carbono que vem causando grandes estragos na saúde do planeta, além de ser apontado como um dos principais responsáveis pelo Efeito Estufa que parece estar elevando a temperatura. Embora exista na proporção de apenas 0,03%, ele é particularmente eficaz em reter calor , ou radiação infravermelha que o solo emite para o espaço após receber a energia da luz solar. 
                   O ozônio, por sua vez, é bom  absorvedor de radiação ultravioleta, emitida pelo Sol em menor proporção que a luz, mas altamente energética e prejudicial à vida. Embora haja bem pouco ozônio, ele garante uma proteção essencial. Os descuidos que temos tido com o meio ambiente tem prejudicado muito a camada de ozônio. É por essa razão que se diz que já existem "buracos na camada de ozônio", por onde raios indesejáveis passam livremente, ou seja o ozônio não consegue mais executar sua função de filtragem. 
                 O Deus Sol, viabiliza as condições ambientais que permitem a vida. Aqui iremos tentar entender como ele age para determinar o tipo de vida que cada um de nos, seres vivos, terá nas mais diferentes regiões desse planeta terra. Isso também nos levará a refletir sobre a maneira como estamos tratando a natureza como um todo. Na verdade nós, seres humanos, temos livre arbítrio, mas com ele estamos provocando mudanças climáticas que poderão nos levar ao extermínio antes do tempo previsto. 
                  A terra capta uma ínfima parcela -(cerca de 2 milésimos de 1 milionésimo do total)- de toda a energia, que se espalha em todas as direções. Essa energia é literalmente responsável, também, sobre as condições climáticas. Mas o importante é que isso basta para manter a superfície terrestre a uma temperatura média de 14 graus. Se a terra retivesse toda a energia recebida, torraria e os organismos vivos desapareceriam. A sábia natureza providenciou um mecanismo para manter o necessário equilíbrio: parte dos raios solares, quando incidem na atmosfera, são refletidos para o espaço. Esse fenômeno funciona como se fosse um espelho refletindo a luz que recebeu. Dessa forma, uma terça parte da energia solar nunca chega a penetrar no ar. Dos dois terços restantes (cerca de 67% do total), parte fica retido nas diferentes camadas atmosféricas e somente 45% chegam à superfície. 
                 O sol influencia o clima pela energia que viaja descendo e subindo de volta. É que, depois que chega ao planeta, este volta a irradiá-la para o espaço, em quantidade exatamente igual à que recebera. Essa devolução constante de energia é que mantem a temperatura e não permite que a terra se aqueça demais. A diferença que existe é que a energia caminha na forma de luz, entre o Sol e a Terra, e na forma de radiação infravermelha, da Terra para o espaço vazio -apenas a energia refletida, com num espelho, preserva a forma de luz necessária. Essa forma de devolução de energia para o espaço é fundamental, pois o ar deixa entrar a luz, mas tende a reter os raios infravermelhos, contribuindo para esquentar certa região. Por exemplo: sobre os polos tem pouco vapor de água, que é bom absorvedor de infravermelho. Desa forma, a energia irradiada não encontra obstáculos, perde-se no espaço e não ajuda a elevar a temperatura. 
                Nas zonas equatoriais ocorre o contrário: como contém cerca de dez vezes mais vapor que os polos, armazenam melhor o calor. Esse ajuste de dosagem térmica é feito pela circulação geral da atmosfera: as massas de ar deslocam-se de um ponto para o outro transportando calor junto com elas.  Esse intercâmbio se dá entre o ar quente das latitude tropicais e o ar frio das latitudes polares. Dessa forma os ventos regulam a diferença de calor entre os polos e o equador. 
                 A terra não está imóvel, ela gira. Devido a um complicado componente da gravidade -(chamada força de Coriolis) - a rotação é forçada, como se tivesse sendo entortada, por assim dizer. Isso ocorre porque quando o ar tende a correr de norte para o sul, por exemplo, é forçado a dobrar na direção leste-oeste. É por essa razão que não há caminho direto do polo para o equador ou vice-versa. Quando os ventos sopram de norte-sul, as trajetórias são elípticas ou concêntricas. As primeiras ocorrem na zona de alta pressão, ou anti-ciclones. As segundas ocorrem nas zonas de baixa pressão, chamadas ciclones.
                 O ser humano é um abitante muito novo, mas já fez tantos estragos que, agora sabemos, estão alterando a ordem natural do planeta. 
                 O planeta Terra sempre sofreu alterações climáticas e até chegou à ERA DO GELO. Meteoros, vulcões, e as próprias rachaduras que alteraram o mapa-múndi, são fatos naturais. Antes que a Terra fosse dominada pelos humanos, somente a natureza fazia ajustes determinados pela energia que recebia. Isso equivale a dizer que o ser humano está alterando as ordens do Deus Sol e, com isso, mudando o sistema climático. Mas os maiores prejudicados seremos todos nós; O Sol não está "nem aí" para o que estamos fazendo. 
                 O arqueólogo americano Harvey Weiss, da Universidade Yale, e a geóloga francesa  Marie Agnes Courty fizeram um estudo sobre os efeitos que uma erupção vulcânica teve há cerca de 3.500 anos sobre a vida das pessoas de então. O estudo chegou à conclusão que um vulcão derrotou o império mesopotâmico, criando uma seca de mais de 300 anos. A erupção, comprovada pela geóloga, fez cair a temperatura . Ao mesmo tempo, uma mudança climática diminuiu o nível de chuvas e trouxe seca que torrou tudo, embora o solo continuasse fértil. Este estudo foi publicado na revista Science.
                 Hoje já estamos vivendo momentos difíceis, com falta de água para beber e, ao mesmo tempo, chuvas intensas destruindo tudo. Mas tudo isso é apenas um aviso; o pior está por vir. 
COMO OCORREM OS FENÔMENOS CLIMÁTICOS
                  Frentes Frias - Ela é causada pelo encontro entre massas de ar dos polos e do equador. Se costuma dizer que  a "chuva foi causada por uma Frente Fria" devido ao frio procedente dos polos. Mas a precipitação também pode se causada por um processo oposto. Isso ocorre quando é uma Frente Quente e Úmida que atropela as massas de ar em região fria.  Dependendo de como se formam, essas massas são úmidas ou secas:  sobre o continente são secas e sobre o oceano são úmidas. Por exemplo: Os ventos alísios sopram dos trópicos para o equador, convergindo para a franja equatorial. Dessa forma, provocam a chamada zona de convergência intertropical que é uma das áreas mais chuvosas do planeta. É nela que encontramos as matas equatoriais e florestas chuvosas, tanto na América do Sul como na Ásia. 
                   Quando a situação se inverte pode haver forte carência de água e assim teremos seca. Isso ocorre porque há pouca penetração de vento marítimo equatorial nos continentes. No deserto tropical, chega-se a um limite assustador: menos de 100 milímetros anuais, comparados aos 1.500 a 2.000 milímetros de chuva carregados pelos ventos elísios. 
                   Ocorrência de Chuva
                   A chuva está estreitamente ligada à temperatura - e controlar esta última é uma das mais importantes funções do envelope gasoso da Terra. Esse envelope de gases funciona como um termostato, regulando o calor que a superfície terrestre recebe e emite. É exatamente a troca de calor  que provoca o movimento das massas de ar, que podem conter maior ou menor quantidade de vapor. É dessa forma que o sistema determina se vai ou não chover. 
                   As mudanças térmicas são uma constante ao longo dos quase 1.000 quilômetros de espessura da atmosfera. Ela sobe e desce, descrevendo uma linha em ziguezague a partir da camada mais próxima da superfície, a troposfera, onde certamente nascem todas as mudanças climáticas.
                   A temperatura é a força que segura o vapor na atmosfera; se ela vai a atmosfera forma nuvens e despencam em forma de água, rumo ao solo.  Portanto, a ocorrência de chuva acontece quando o ar não consegue manter a água no céu. 
                   O vapor de água tem papel decisivo nos fenômenos chuvosos. Com um detalhe curioso: sua quantidade na atmosfera não é fixa, pois quando há excesso, simplesmente chove. A chuva é a forma da atmosfera enxugar-se, livrando-se da água excedente.  
                    Todo esse sistema de circulação do ar é vital para a saúde do planeta, pois influi decisivamente sobre a vida dos organismos e dos ecossistemas. Assim, fica evidente que formas inadequadas de intervenção no meio ambiente são as causas mais visíveis que alteram a vida das plantas, animais e do próprio homem. 
                  Como sabemos, a maior parte de umidade da Terra encontra-se no mar. Os oceanos ocupam 70,8% da superfície planetária e respondem por 84% da água atmosférica.  Os raios solares fazem evaporar a água dos oceanos, rios e lagos. Por ser mais leve que o ar, o vapor vai para as camadas altas da atmosfera, mas só conseguem permanecer no céu enquanto houver calor. 
                  As chuvas intensas acontecem quando ocorre saturação, que traduz em ar carregado de chuva em potencial. Quando, por algum motivo, acontece uma pequena redução na temperatura, a umidade (vapor) que já estava no limite máximo é forçada a passar para o estado líquido, em minusculas partículas, cujo diâmetro não supera 3 centésimos de milímetro; em seguida elas se agrupam em nuvens e despencam sobre a terra. 
                  Há ainda chuvas produzidas por propagação. É que as massas de ar quente sempre sobem e esfriam à media que sobem. Nessa condição, o vapor  de água  contido no ar esfria e se precipita.  Esse tipo de chuva decorre de nuvens brancas, densas e algodoadas, chamadas cúmulos. Quando há muita umidade, o branco torna-se cinza-escuro e a nuvem ganha o nome de cúmulo-nimbo. Esse tipo de chuva é particularmente intensa, acompanhadas de tormentas, raios e granizo. 
                 Existem também as chuvas de convergência que ocorrem quando as massas de ar sobem com a ajuda dos ventos alísios. Elas também geram pancadas fortes, próprias das zonas equatoriais. 
                  Também acontecem precipitações causadas por montanhas no caminho das massas de ar. Ao chegar à montanha o ar é forçado a subir e isso resfria o vapor - quando chega no outro lado da montanha, a nuvem está completamente vazia. 
                   Ocorrência de Seca
                   A seca é um fenômeno bem diferente. Ao contrário da chuva, ela se dá pela descida de ar para a superfície. Isso impede a normal formação de nuvens, situação que ocorre nos anticiclones. A ausência de ventos úmidos é um dos fatores que influenciam o início desse fenômeno devastador. Há também a oscilação dos níveis de radiação solar e a distância muito grande de uma região aos oceanos. Nessa condição, a umidade dos oceanos não conseguem contribuir para a formação de nuvens.
                   A Umidade Relativa do ar
                   A umidade do relativa do ar depende diretamente da temperatura: quanto maior a temperatura, mais vapor pode haver. O corpo humano sente os efeitos dessa umidade relativa: quando está muito baixa (12%) falta umidade e é prejudicial à saúde. O inverso ocorre quando o ar está saturado, com 100% de umidade. Nessa condição, o ar fica pronto para uma mudança em grande escala, pois não consegue admitir mais vapor. Quando está sobrecarregado de vapor e ocorre uma mudança de temperatura, a água despenca em grande quantidade.
                  Ocorrência de Raios
                  Os raios ocorrem quando há diferença na quantidade de eletricidade entre o topo e a base das nuvens. 
                   Ocorrência de Tornados, Tormentas e Furacões
                   Os tornados aparecem onde há diferenças extremas entre a direção das massas de ar frio e quente. Costumam ter um diâmetro entre 50 e 500 metros, e velocidade superior a 75 quilômetros por segundo. São as tempestades mais temidas porque levam tudo o que encontram no seu caminho. 
                   A tormenta simples nascem no encontro de ar quente das camadas baixas da atmosfera e o ar frio das camadas mais altas. Cristais de gelo são literalmente jogados para cima e para baixo, criando grande eletricidade no céu; eles colidem contra gotas de água  e provocam troca de elétrons em suas molécula. Desse modo, as partículas eletrizadas acabam descarregando a tremenda energia acumulada na forma de relâmpagos. As descargas elétricas viajam do céu para o solo ou vice-versa, e têm até 100 milhões de volts.
                   Furacões nascem no oceano do ar quente sobre o mar, sobem em forma de espirais para formar um anel de nuvens altas no céu e são enormes e assustadoras. Com acumulo de vapor há uma saturação e ele tende a voltar ao estado líquido e se condensa. Isto é forma blocos de gotas que não podem manterem-se no ar. A chuva então despenca numa torrente chamada furacão. Chegam a ter 600 quilômetros e se formam em zonas tropicais com temperaturas acima de 27 graus centígrados. O centro do torvelinho chama-se olho do furacão, com dfiâmetro de 6 a 40 quilômetros. Aí a pressão é baixa, o vento suave, o ar quente e úmido.  O furacão morre  quando avança para o continente e sai dos trópicos.
                   As forma de nuvens 
                   Os "nimbos-estratos" são densos, cinzentos e chuvosos, e ficam a 1 quilômetro de altura.  Depois vem os "estratos", 1.000 metros acima, que produzem chuvas e neve. O "cúmulo-nimbo" (3 quilômetros) e o"nimbo" (5 quilômetros) são nuvens verticais densas. O primeiro é escuro, e o segundo claro. Entre 6 e 8 quilômetros se formam os "estratos-cúmulos" e "atos-cúmulos", de distribuição irregular e com ondulações.  Entre 9 e 12 quilômetros estão, em ordem de altura, os "altos estratos", "cirros-cúmulos", "cirros extratos" "e cirros". 
                   A importância dos Microclimas
                   Quando temos um bosque frondoso, a copa das árvores acumula a maior parte da radiação solar, isso significa que o chão, permanecendo quase todo o dia na penumbra, é bem mais fresco. Aqui a temperatura é cerca de 5 graus centígrados mais baixa do que seu contorno vizinho. As metrópoles também são uma forma de microclimas. Geralmente são cobertas por massas de ar quente, situadas a cerca de 120 metros de altura, devido à poluição local. Portanto, as cidades formam ilhas de microclimas quentes. Temos como resultado o aumento de calor em certas regiões da cidade, que pode chegar em torno de 6 graus centígrados a mais do que nas regiões rurais dessa mesma cidade, onde há mais arborização. Como poluição das cidades podemos incluir o asfaltamento e concretagem em geral que absorvem a radiação solar. 
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Nicéas Romeo Zanchett 

                   

domingo, 5 de outubro de 2014

VAIDADE DA GLÓRIA - Por Montaigne

Narciso 
VAIDADE DA GLÓRIA 
                    Toda a glória que pretendo da minha vida, é tê-la passado tranquilamente, não segundo Metrodoro de Quíos, Arcesilau ou Aristipo, mas segundo eu próprio. Já que a filosofia não soube encontrar nenhum meio para a tranquilidade que fosse bom em comum, que cada um a procure em particular. 
                     A quem devem Cesar e Alexandre essa grandeza infinita da sua fama senão à fortuna? 
                     Quantos homens não extinguiu ela, no princípio das suas carreiras, dos quais não temos conhecimento algum, tendo empregado igual coragem que a daqueles, porque a desgraça da sua sorte os fez parar logo no começo das suas empresas? 
                     Através de tantos e tão extremos perigos, não me lembro que César tenha sido ferido; mil morreram de menores perigos que o menor daqueles que ele venceu. 
                     Inúmeras belas ações se devem perder sem testemunhas antes que venha uma de que se tire proveito; não se está sempre no alto duma brecha, ou na vanguarda dum exército, à vista do general, como sobre o cadafalso; é-se surpreendido entre barreira e o fosso; é necessário tentara sorte contra uma casinhola; é necessário desanichar quatro miseráveis arcabuzeiros duma granja; é preciso desviar-se do grupo e arriscar-se sozinho conforme a oportunidade que se oferece. 
                    E se repararmos bem, vê-se-á, creio eu , que, segundo a experiência, as menos brilhantes ocasiões são as mais perigosas e que nas guerras que tem havido no nosso tempo se tem perdido mais gente de bem nas ocasiões ligeiras e pouco importantes e na tomada de qualquer simples pardieiro, do que em ocasiões dignas e honrosas. 
                    Quem tem a sua morte por mal empregada, se não for numa ocasião assinalada, em vez de ilustrar sua morte, obscurece voluntariamente a sua vida, deixando fugir muitas belas ocasiões de se arriscar; e todas as juntas são bastante ilustres, pois a consciência as patenteia suficientemente.  "Glória nostra est testimonium conscientiae nostre."
                  Quem não é homem de bem senão porque o saberão e o estimularão melhor depois de o saberem, quem não quer fazer bem senão com a condição de que a sua virtude chegue ao conhecimento dos homens, não é pessoa de que se possam aproveitar serviços...
                  É necessário ir à guerra por dever e aguardar esta recompensa que não pode faltar a todas as belas ações, nem mesmo aos pensamentos virtuosos por mais ocultos que eles sejam; é o contentamento que uma consciência bem formada sente em si por bem fazer. É necessário ser valente por si mesmo e pela vantagem que há em ter a sua coragem abrigada numa posição firme e assegurada contra os assaltos da fortuna. 
                  Não é para o público que a nossa alma deve representar o seu papel; é dentro de nós, no íntimo, para onde nenhuns olhos veem senão os nossos; ai ela protege-nos do medo da morte, das dores e da própria vergonha; dá-nos coragem para sofrermos a perda dos nossos filhos, dos nossos amigos e das nossas fortunas; e quando a oportunidade se apresenta leva-nos também aos acasos da guerra, non emolumento alíquo, sed ipsius honestatis decore (não pela esperança de um benefício, mas pela própria honra.) 
                  Este provérbio é bem mais digno de ser desejado e esperado do que a honra e a glória, que não são mais que uma opinião favorável que fazem de nós... 
Miguel Eyquem de Montaigne
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BREVE BIOGRAFIA DO AUTOR 
             Miguel Eyquem de Montaigne, moralista frances, nasceu no castelo de Montaigne em 1533, e lá mesmo morreu em 1592. Fez em Bordeus os seus estudos. Foi conselheiro do tribunal de Bordeus até 1570, retirando-se então para Montaigne, onde escreveu, de 1571 a 1580, os dois primeiros livros dos seus Ensaios, 1580. Fez depois uma longa viagem pela Suíça, Alemanha, Itália, onde visitou Tasso. Durante esta ausência foi eleito maire Bodeus, e desempenhou o cargo de 1581 a 1583. Voltando à vida privada, dedicou-se a acrescentar e retocar a sua obra nos últimos nove anos da sua vida. 
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 14 de setembro de 2014

A RENASCENÇA - Por Eugênio Pelletan

A RENASCENÇA 
Bronzino

  Camões


               O cristianismo tinha pregado à raça do norte, instalada sobre solo ainda virgem, a doutrina da privação, da continência, e involuntariamente, sem pensar, tinha contribuído para desenvolver a economia, e pela economia a riqueza. O homem trabalhava com sentimento da expiação, unicamente porque o trabalho fora o sentimento da expiação, unicamente porque o trabalho fora o anátema  (uma oferenda) que deus  lançara sobre ele à saída do Éden. Obedecia ao castigo, o espírito disposto à mortificação, abafando em si a voz do desejo, como uma provocação do "tentador". 
               O trabalhador levantava a princípio, e apenas do produzido pela sua mão, a parte estritamente necessária à sua existência, e restituía o excedente ao solo como novo meio de produção. A riqueza imobiliária  crescia assim de hora para hora, sucessivamente aumentada pela mão de obra de cada família. A herdade, a quinta, a represa, a fábrica, saem uma a uma da terra, como um segunda  vegetação.  Esta fecundidade, sem cessar aumenta, convidava sem cessar o homem a gozar, pela facilidade de meios ao gosto oferecidos. E, no próprio aumento em que a crença plenamente, completamente aceita, por ele afirmada sem reserva, sem contestação, no mais profundo do seu íntimo, da sua consciência, lhe dizia, lhe gritava por todas as vozes de ar, por todas as pedras do caminho, que o corpo era uma farrapo, o bem-estar um pecado, a felicidade em desafio, o luxo uma blasfêmia, a satisfação dos sentidos uma perdição, ele procurava, apesar da ameaça do dogma, apesar do protesto doloroso da sua própria convicção, apesar do perigo, apesar do interdito da igreja, como empurrado, como precipitado por uma força irresistível, por uma nova revelação, procurava, isto não basta, invocava com paixão o ouro, a seda, a riqueza, o esplendor, a beleza, a eflorescência da carne e a volúpia da sensação. 
                Enquanto a sua alma atrasada, inquieta, suspirava, gemia sob velhos dogmas, úteis um dia e agora enganadores, de decadência e de penitência ele sentia estremecer, transbordar em si uma vida, mais forte do que a sua própria crença. O sinal de regeneração resplandecia por todos os lado. O coração do homem, revolvido de alto a baixo, esperava o milagre precursor da ideia. O milagre falou. 
                 Um homem ia de cidade em cidade, oferecendo aos príncipes da Europa um mundo por um navio. Tinha acuradamente pesado a terra, ao clarão da sua lâmpada, na concha do seu pensamento. Não lhe encontrava o peso que ela devia ter na criação e continuava a machinar (cortar com machim) em silêncio no problema. Observava à tarde, no ocaso, o sol mergulhar na escuma do Mediterrâneo. Onde ia este sublime iluminador do espaço que fugia no horizonte na púrpura da nuvem? Ia visitar com se esplendor uma outra região desconhecida ao nosso olhar? Se a terra era esférica, a lei do equilíbrio assim o exigia. À medida que o grande visionário prolongava, diante do céu apagado, este  interrogatório do gênio do seu próprio pensamento, a sua dúvida interior, sucessivamente esclarecida, tornava,no fundo da sua consciência, uma aparência, uma ralidade. Via ali, na sua frente, nos confins da última estrela, tão seguramente como com os olhos do raciocínio, um continente. Pula, como que levantado por toda a energia elétrica do planeta.  Abre os braços ao espaço e grita: 
                  - Tenho um mundo! 
                   Ouve-lhe o grito o mar e repete-o de vaga em vaga até à margem da Atlântida. 
                   O mendigo dos príncipe vagueia, bordão na mão, levando de corte em corte o continente do seu pensamento. nenhum soberano da Itália quis aceitar esse dom dum sonho, e o profeta do hemisfério atlântico ia bater à porta dum outro reino. Tinha fé na sua visão. Abafava no estreito recinto da nossa geografia. a esperança caminhava-lhe na frente, mostrando-lhe o caminho. Segue-a, a fronte radiante, sem escutar o estupido murmúrio da ironia. Encontra por fim uma mulher, uma rainha, que quis contribuir com seu tesouro para a verificação do seu pressentimento. Dá-lhe ela um navio, e ele parte. 
                  O espírito do progresso, esse conluio universal, involuntário, de conjurados estrangeiros e devotados, sem se conhecerem uns aos outros, tinha já, por um admirável cortesia e uma simpatia admirável, inventando a bússola, esse relógio do espaço que marca a rota dos viajantes na ponta da sua agulha. Conduzido por essa muda assistência que, no fundo do olvido da Arábia, talvez um colaborador incógnito lhe tinha preparado, o ousado aventureiro desfralda a vela ao sopro do mistério. 
                 Dede dias, desde semanas, que a costa lhe tinha fugido para trás. Ia, ia sempre; a vaga vinha e passava; o vácuo ressurgia do vácuo ao seu olhar; o sol nascia nascia e morria sobre a mesma incerteza. A equipagem, diante da imensidade, duvida duma margem. E julgando que o mundo ia faltar, quis forçar o conquistador de um enigma a reconsiderar a sua temeridade. Mas ele, invencivelmente confiado no seu sonho e por todos os lados envolvido pela nada, deixava que o vento de Deus lhe impelisse a nave, e observava o horizonte.  A terra estava ali, no fim do seu dedo; via-a, podia mostrá-la. 
                 E uma manhã, - a natureza tinha trajado nesse dia as suas vestes de gala, como para um grande dia da humanidade, - o intrépido navegador, viu de súbito surgir da escuma, à proa do seu navio, a terra do seu sonho, ornamentada da palma do trópico, sorridente no esplendor da manhã. A sua noiva tinha sacudido, à sua aproximação, o ramalhete umedecido de orvalho e parecia vir para ele num eflúvio perfumado. Reconheceu-a: tantas vezes a tinha visto na meditação das suas vigílias! Deixa escapar a cana de leme e cai, fulminado, de joelhos sobre o tombadilho. A carne era muito fraca para suportar uma alegria do espírito.
                Tinha aberto à sua pátria adotiva a porta da riqueza. A Espanha fora às pressas sobre seus rastos amontoar o ouro na esteira do sol. Quando Deus quer atrair a civilização para uma região, esconde ali  um tesouro. O eterno Argonauta do progresso transpõe o abismo para conquistar o misterioso velo. A Espanha fora a primeira a Espérida,  cujo brilho tentador chamava a humanidade para o ocidente. Mas no dia em que a civilização invadiu a Europa, a Espérida,  sacudindo a sua dourada, tomara o voo, e desaparecera do outro lado do mar, no crepúsculo do ocaso.  A Espanha tinha-a perseguido por sua vez a tornara a encontrá-la num vale das Cordilheiras. A Espérida  de novo fugira, passado quatro séculos, para enigmar as margens de outro mar, em frente a Ásia. Mensageira mística da caravana do progresso, é ela que lhe indica o seu caminho no espaço. 
                 O ouro é o único sedutor assas poderoso para arrancar o homem ao seu lar, e exitá-lo à expatriação. Oferece, com efeito, ao colono uma riqueza imediata que reembolsa em pouco tempo ao décuplo  o adiantamento da emigração; para as primeiras despesas de transplantação da raça civilizada ao meio da raça ainda mergulhada na barbaria, e acumula a população espalhada à roda da cratera hiante das suas minas. Semeia aqui e ali centros de produção ou de permuta; promove em fim, em toda a extensão vigorosa e multíplice da palavra colonização. 
                 O tesouro escondido no México serviu, pois, imensamente à humanidade, menos por ele propriamente, menos pela sua barra que pela sua influência e pela sua atração. Convidou e deteve a raça européia América. 
                 Essa raça poderosa, munida de todas as armas da civilização, arrancou desta natureza virgem, de entranhas ardentes, uma vida nova, nova embriaguez. Deitou o homem na sua taça a seiva de outra vegetação, e bebeu o aroma de outro sol. Revestiu-se de esplendores e colheu essências desconhecidas à sua primeira pátria. Enriqueceu o seu poder de ser, a sua gama de sensação, de toda a volúpia, de toda a utilidade que a baunilha, a cana de assucar, a seiva luxuriante do trópico, espalham hoje à roda dele, sobre ele, à sua mesa, no seu festim, á sua cabeceira. Já Vasco da Gama tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança e, pelo lado aposto, atingido a Ásia, pela grande etapa do oeste. Assim a Europa tinha, ao mesmo tempo, os dois continentes vencidos, e presos às âncoras dos seus navios. Ela reverterá mais tarde sobre a América a quente ambrosia da Ásia, a especiaria e o café, para que a fibra do homem do Norte, aquecida à chama e banhada da eletricidade do "meio dia", mais simpática, mais vibrante à sensação, absorva e repercuta na atmosfera mais entusiasmo e mais gênio. 
                  Algum tempo depois outro profeta, um outro Titan revoltado contra a debilidade da nossa natureza, ia visitar Deus e roubava-lhe o segredo da criação. Inventava o telescópio, dava ao homem um sentido a mais, que via o que o olho carnal nunca tinha visto: a imensidade escondida por detrás da imensidade. Ao primeiro olhar do homem que acometia o céu abate a abóbada dos velhos tempos. A estrela, surpreendida na nudez, recuo no espaço a séculos de distância. O espírito da terra sobe à altura a que ainda não chegara o voo do anjo. Calcula o Éter, um milhão de vezes acumulado sobre o Éter, o prodigioso e brilhante limite que Deus colocara no caminho do infinito. 
                  Assim, à medida que Cristóvão Colombo estendia sob nossos pés o espaço do globo, Galileu, por uma admirável correlação, desdobrava sobre a nossa cabeça o espaço do firmamento. Executavam um e outro o mandado do progresso; conduziam a humanidade mais para diante na imensidão. Mas o novo Prometeu, que tinha conquistado mais do que a chama, que tinha conquistado a luz, que tinha dito à terra: "Move-te!" com o escândalo da Escritura, tinha desafiado o poder, de aí por diante surdo, cego, esgotado com a sua obra e amortalhado no seu progresso.  Mas devia espiar a temeridade. O velho dogma lança-lhe a mão e arrasta-o, enfraquecido pelo peso da sua glória,até ao limiar duma igreja. Com mão brutal curva-lhe a fronte na poeira e obriga-o, com a força do braço, a renegar e revelação visível de Deus vivo. E aquele que era então entre todos o maior, balbucia, os dois joelhos em terra, a rejeição da sua própria grandeza. Logo que a terra ouviu esta injúria à criação, um monge colocou uma mordaça na boca do sábio, para impor o silêncio a este gênio ainda cheio de verdade. Tinha escolhido bem o suplício: o silêncio para um semelhante confidente da eternidade devia ser com efeito o mais cruel castigo. 
                   A razão humana, a ciência, iam perecer sob a polícia do papado conjurada com o poder secular para recalcar toda a nova expansão da verdade, se um obreiro, um desconhecido perdido na sombra da multidão, não tivesse tido a ideia de dispor cada letra do alfabeto num grão de metal. Logo que um pensamento acabava de surgir no mundo, sobre uma folha de papel, o operário revolvia a poeira da palavra que fundia no seu cadinho, e, pela misteriosa química da sua inteligência, transformava a letra de mão em letra de ferro, e recompunha o manuscrito sobre chassis.  Colocava em seguida o chassis sobre um cilindro, e reproduzia a cada pancada da prensa tantas vezes o pensamento de um só quantos escritos havia capazes de o compreender no mundo das inteligências. 
                 A ciência, até então trabalhosamente transcrita sobre velino, de dispendiosa mão de obra, fora unicamente a distração, a volúpia suntuária das corporações e das aristocracias. Só podia pensar em comunicar com os séculos, o que era assaz independente pela sua fortuna para adquirir uma biblioteca, porque uma biblioteca representava então a existência de muitas famílias.  
                  A imprensa  resgata esta desigualdade, esta iniquidade do destino, entre filhos dum mesmo espírito, igualmente nascidos para a ciência. Ao mesmo tempo que a economia, sempre crescente, metia na mão de cada homem a riqueza acumulada dos seus antepassados, Gutemberg metia na outra mão o gênio tradicional da história. Lançava do chofre da alma do mais humilde servidor da ideia a alma inteira da humanidade; reconduzia toda a parte de eternidade, deixada para traz no fundo do passado, sobre cada fronte pendia no estudo; abria ao mesmo tempo um imenso auditório, um auditório instantâneo, à ciência e à inspiração.
                 Em qualquer lugar em que a voz humana falara para todos, a imprensa tomava essa palavra, quente ainda do sopro do lábio, vazava-a no molde, multiplicava-a sem conta, e lançava-a ao mundo como a folha da Sibila. Não havia sob o sol um pensamento escrito, manifesto, que não recebesse logo a repercussão em simpatia, em admiração, em refutação ou em contradição. Arrebatada pelo vento do espaço até onde podiam chegar os passos do homem, provocava indefinidamente na sua passagem a concorrência e colaboração  universal da humanidade. Todo o homem falava ao mesmo tempo por toda a parte, o gênio respondia ao gênio, o relâmpago pedia o relâmpago, a verdade explodia na imensidade. Nenhuma ideia tinha tempo de dormir.Sempre de pé, sempre errante através das nações, pregava, convertia sempre. A atmosfera inteira estava cheia duma perpétua palavra que ia e vinha infatigavelmente, duma a outra fronteira. O Cristianismo tinha fundado na Europa a unidade da crença, a imprensa funda a unidade da razão. 
                   A glória deixou de conhecer a incerteza da espera, quebrou a prisão do isolamento, viu com os seus olhos a impressão contemporânea de sua obra, assistiu em vida à sua posteridade, faz convergir sobre ela a admiração do povo pela confiança no seu trabalho, aumentou o gênio pela certeza do seu gênio, ainda nesta vida pôs um pé na eternidade, pôde morrer sem temer a mordedura do tempo sobre o seu pensamento. O seu pensamento multiplicado ao infinito, e gravado como sobre bronze, desafiava de aí em diante todos os cataclismos; porque vive amoedado em mais parcelas do que a inteligências. Para destruir, a mão do homem teria de reavê-lo de cada nação, molécula por molécula. O mesmo valeria retomar a gota à água do Oceano. O espírito de morte ainda o não tentou. 
                  A imprensa liberta a razão humana da tutela da Igreja, inaugura no mundo a democracia do conhecimento, nivela o sacerdócio interior do pensamento, faz de todo o olhar elevado ao céu um testemunho da Divindade, entrega a cada homem o cargo da sua própria crença e transforma a humanidade numa vasta escola, numa reciprocidade de ensino, onde todos, humildes e poderosos, trazem e levam uma convicção. Comunhão sagrada de alma com alma, através do tempo, através da distância/ carne incorruptível da ideia eternamente servida a todos no banquete da verdade, um dia chegará, não o duvido, em que o homem, mais adiantado, e mais reconhecido, inscreverá religiosamente a tua festa no eucológio do progresso e cantará cada ano o Te Deum da tua vitória sobre o espírito das trevas! A imprensa tinha dominado a ignorância, mas nenhuma potência tinha ainda podido submeter o despotismo esparso do feudalismo. Refugiada e barricada na sua torre, sobre o cimo do rochedo, a raça conquistadora, sempre soberba, deixava o fluxo dos exercícios bater inutilmente na base da sua muralha. Do alto dos seus castelos, tão numerosos como as colinas, tão altos  como a região das águias, desafiava o arco e o ariete, inacessível e sempre pronto a fulminar como raio na nuvem.  A força reunida da população, acumulada em dado momento contra ele, não era ainda bastante para deitar por terra esta pedra de opressão que pesava sobre cada vale. Mas, enquanto o senhor dormia, com o seu orgulho, embalado pelo ruído do vento, um humilde monge triturava na sombra o enxofre e o carvão para distrair os ócios da cela; amassava no fundo da sua escudela um punhado desta poeira, aproxima-se-lhe a chama, e a escudela voa em estilhas. Tinha achado, ou pelo menos demonstrado, recreando-se de quebrar a montanha. Meteu na mão do homem o poder do raio, e um dia o barão ouviu na planície uma surda detonação.  Um relâmpago demorado, que parecia sair das entranhas da terra, ia feri-lo sobre seu rochedo; sentiu a torre estremecer com o estampido, oscilar, inclinar-se um instante e abater pela base. O dominador, surpreendido e vencido na ostentação da sua inviolabilidade, na sua invulnerabilidade, lança ao espaço uma derradeira blasfêmia, e desaparece no abismo, sob a ruína do seu castelo. 
                   Alguns séculos depois, restava apenas deste mundo de terror, que por tanto tempo tinha pesado sobre a França com o peso dos seus baluartes, uma torre meio desmantelada, para testemunhar ainda o passado.  Essa torre, suspensa sobre o abismo, cascata móvel, caía pedra a pedra no fundo do barranco. A hera envolvia-a numa fúnebre roupagem trêmula em que gemia um lamento eterno. De tempos a tempos, um falcão, calvo e fatigado de viver, vinha terminar o voo sobre a última ameia, e aí, inclinado sobre o espaço, a asa meio aberta, o pescoço estendido,
chamava com um melancólico grito o vento que já o não podia manter. 
                   O feudalismo e a ignorância estavam dispersos, varridos no mesmo dia, pela mesma vontade. A pólvora do canhão tinha nivelado o território; a imprensa igualara o espírito. O mundo moderno nascia; a democracia já se agitava. Um homem iria breve escrever: "Penso, logo existo!" e proclamar com uma palavra a soberania da razão. 
                  A viagem terminou e o viajante pôde dizer consigo: bendigo deus emfim. O mundo está salvo. Vou aqui levantar a minha tenda. Vou repousar um instante. O progresso está demonstrado. Ah! bastante vezes maldisse o comprimento do caminho. Sentia, falando, uma dúvida murmurar surdamente sob a minha palavra, no fundo da minha consciência. Dizia-me essa dúvida: Tu queres justificar a civilização e justificas a injustiça. Aceitas sucessivamente diante da história a casta, a escravidão, a gleba, a servidão; aprovas sucessivamente o feiticismo, o panteísmo, o politeísmo, o judaísmo, o cristianismo; tens uma desculpa mais ainda, verdadeiro reconhecimento por cada iniquidade, por cada erro que tu,mais tarde, reconheces ser um erro e uma iniquidade."
                  A esta dúvida, eis o que a experiência responde: "Todo o problema da história é uma questão de ótica. Se o historiador, verdadeiro espectador do passado, se vai colocar no ponto d partida, e observa em seguida a humanidade, débil, de certa maneira animal, mergulhada na última servidão da estação, da fome, da doença, então compreenderá, bendirá toda a outra forma de escravidão menos perigosa, menos  custosa, que permite ao homem amontoar no seu caminho mais conhecimentos e mais liberdade. Se se coloca, ao contrário, no ponto de chegada da humanidade ajuíza de todos os períodos anteriores, e por conseguinte inferiores da civilização, segundo as últimas conquistas e as últimas transformações da história, falseia o juízo, julga o bem depois, do melhor, calunia necessariamente o passado, sempre condenado a ser alternativamente bem ou mal; bem quanto a este momento; mal com respeito àquele outro. Depois queremos ser justos, devemos dizer: toda a forma que tende a criar um progresso deve ser bendita à hora desse progresso; toda a forma que, depois de ter criado um progresso, desaparece abolida pelo próprio progresso, é, de aí em diante digna de reprovação." 
Pedro Clemente Eugênio Pelletan 
    


BREVE BIOGRAFIA de Eugênio Pelletan 

             Pedro Clemente Eugênio Pelletan, escritor e político francês, nasceu em Saint-Palais- sur-Mer em 1813, e faleceu em em Paris em 1884. 
             Logo que chegou a Paris colaborou em vários jornais; em 1864 foi eleito deputado e depois reeleito em 1869.  Em 1870 foi membro do "Governo da Defesa", e continuando a sua carreira política, foi nomeado senador em 1884. Publicou, entre outras obras: Profession de foi do XIX siecle, em 1852; Le monde marche, 1857; Les Droits de l'Homme, em 1858; La famille; La Mère, em 1865; Le Grand Fredéric, em 1878, etc. 
Nicéas Romeo Zanchett 





sexta-feira, 29 de agosto de 2014

FILOSOFIA - A VAIDADE DOS DONS DA FORTUNA - Boecio

Nicéas Romeo Zanchett 
                    Eu disse: 
                    - Tu própria sabes que a ambição das glórias mundanas pouco império tem tido sobre mim. Apesar disso, tenho desejado ocasiões de agir para que a virtude não perecesse por falta de exercício. 
                    Então disse ela: 
                    - Essa é aquela última enfermidade que pode seduzir as inteligências, que, conquanto nobres, não puderam ainda atingir uma perfeição refinada pela prática das virtudes - refiro-me ao amor da glória e da fama por grandes serviços prestados à comunidade. E contudo considera comigo como esta glória é uma coisa pobre e efêmera! Todo o globo terrestre, como aprendeste nas demonstrações de astronomia, comparado com a extensão do céu não é maior do que um ponto; isto é, medida pela vastidão da esfera celeste, a terra não ocupa absolutamente espaço algum. Ora, desta proporção tão insignificante do Universo, só uma quarta parte, como as provas de Ptolomeu nos ensinam, é habitada por criaturas vivas nossas conhecidas. Se desta quarta parte tirarmos mentalmente tudo o que é ocupado por mares e pântanos ou por desertos áridos, quase que não fica senão uma faixa estreita para a habitação do homem.  Então tu, que estás encerrado e prisioneiro nesta exígua fração dum ponto, ainda podes pensar em blasonar a tua fama, em espalhar o te renome? Por que, que tamanho ou magnificência tem a glória encerrada em limites tão estreitos e mesquinhos?
                    Além disso, este pequeno espaço de terra habitada é ocupado por muitas nações divergindo muito na língua, nos costumes, no modo de vida; a muitas destas, pela dificuldade das viagens, pela diversidade das línguas, pela falta de relações comerciais, não pode chegar nem já a fama de cidades quanto menos a de um homem! Vê tu, pois, como é estreita e limitada a glória que tanto te empenhas em espalhar e estender! De mais, os costumes e instituições das diferentes raças não concordam uns com os outros, e o que digo de louvor num país é castigado noutro. Por isso, se alguém ama o aplauso da fama não lhe servirá de muito tentar espalhar o seu nome entre muitos povos. De forma que cada um se deve contentar em que o alcance da sua glória seja limitado ao seu próprio povo. 
                     Por outro lado, quantas pessoas de grande fama nos seus tempos se perderam no esquecimento por falta de tradição e de crônica! E mesmo de que servem as crônicas escritas, que, com os seus autores, são alcançadas pelo esquecimento depois de um intervalo de tempo um pouco mais longo? Mas quando pensas na fama futura julgas estar arranjando a imortalidade para ti. Ora, se medires os espaços infinitos da eternidade, que campo tens para te regozijares na durabilidade do teu nome? Com efeito, se um só momento for comparado a dez mil anos, há uma certa duração relativa por mais pequena que seja, porque ambos os períodos são finitos. Mas este mesmo número de anos - ou ainda um número muitas vezes maior - não pode ser comparado à duração eterna; porque  os períodos finitos podem ser comparados uns com os outros, mas o finito e o infinito nunca. Por isso sucede que a fama, ainda que se estendesse por muitos anos, parecerá, se for comparada à eternidade, não só pequena, mas absolutamente nula. Tu sabes proceder corretamente, sabes apenas cortejar a aura popular e ganhar os sorrisos vãos da multidão - mais, abandonas o grande valor da consciência e virtude e pedes recompensa às fracas palavras dos outros. Deixa que te conte como alguém zombou da superficialidade desta espécie de arrogância: Certo homem assaltou outro que tomara o nome de filósofo como capa de vangloria e não para praticar a verdadeira virtude: 
                      - Agora é que vou saber que é filósofo, se suportares calma e pacientemente os meus insultos! 
                     O nosso homem finge ser paciente por um certo tempo, deixando-se insultar, e gritou finalmente: 
                      - Agora vez que sou filósofo? 
                      O outro respondeu-lhe sarcasticamente: 
                      - Tê-lo-ia pensado se não tivesses dito isso. 
                     Além disso, que tem com a glória os espíritos superiores; 
                      - é desses que falamos, dos que procuram glória pela virtude - que tem esses com a fama depois da dissolução  do corpo? Porque, se o homem morre totalmente, o que a razão nos proíbe acreditar, não há glória, visto que aquele a quem dizem pertencer a glória não existe. Mas a inteligência, cônscia da   sua retidão, desprendendo-se da prisão terrestre, não despreza todas as coisas terrestres regozijando-se da sua libertação dos laços materiais e entrando nas alegrias do céu? 
Trecho extraído da Consolação filosófica.
BREVE BIOGRAFIA DE BOÉCIO 
                Anício Mânlio Severino Boécio, homem de Estado e escritor romano, nasceu em Roma em 475 (aproximadamente); pertencia a uma rica família patrícia. Foi feito cônsul em 510 por Theodorico, rei dos Ostrogodos, e foi um senador e homem público distinto; mas as tentativas do senado para tornar real a supremacia nominal do imperador Bizantino, apelando para ele contra Theodorico, irritaram o rei que o fez prender em Pávia e executá-lo em 525.  Durante o período de prisão escreveu sua "Consolação Filosófica", parte em prosa, parte em verso, que gozou de grande popularidade na idade média. Ele tornou também conhecida a literatura grega aos seus contemporâneos por meio de traduções e comentários dos livros gregos de filosofia, matemáticas, retórica e gramática. 
Nicéas Romeo Zanchett  
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sábado, 23 de agosto de 2014

O QUE É UM VERDADEIRO EXPERT

Por Nicéas Romeo Zanchett 
Pintura SAMBISTAS de Romeo Zanchett 
Pastel sobre Papel Canson 
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                   Hoje se usa com muita prodigalidade o vocábulo expert. Não há um marchand-de-Tableux ou crítico de arte recém improvisado que não o seja. Mas o que é, afinal, um expert? 
                    Meu saudoso amigo Jorge Beltrão, com quem aprendi muita coisa sobre a verdadeira obra de arte, uma vez me disse: "Um homem que em toda a sua vida viu apenas um Di Cavalcanti não pode saber se é bom ou mau. Se viu dois, um terá sido melhor que o outro. Quando tiver visto
e estudado uma centena de obras do mesmo artista, sua opinião terá alguma probabilidade de ser realmente válida. E quando tiver visto mil, estará em vias de se tornar um expert, evidentemente, sobre aquele artista.  Para quem não teve o prazer de conhecer, Jorge Beltrão foi um dos mais conceituados marchands do Brasil. Teve galeria de arte e loja de móveis coloniais na rua São Clemente, 74 , em Botafogo - Rio de Janeiro. Trabalhei com ele de 1973 a 1979). 
                    Um expert é, pois, alguém que pelo estudo profundo e paciente, adquiriu conhecimento particular acerca de um determinado artista ou escola, e pode portanto, com autoridade, emitir opiniões sobre a autenticidade de uma determinada obra pertencente àquele artista, àquele período ou àquela escola.  A ação do expert restringe-se, forçosamente, ao campo do conhecimento de sua especialidade: Uma opinião de Bernard Berenson sobre uma pintura italiana do Renascimento terá logicamente muito maior força que outra opinião do mesmo expert acerca de, por exemplo, um quadro holandês da mesma época. 
                   Evidentemente, mesmo o melhor expert pode equivocar-se (e frequentemente o fazem), ou discordarem entre si. No primeiro caso é prova e logro de que foi vítima o célebre expert holandês  Abraham Bredius atestando a autenticidade de um Vermeer de Delf pintado por Vam Meegeren, autor da obra tão perfeita que o próprio falsário teve de provar em juízo, depois da Segunda Guerra Mundial, que sua pintura era falsa;  no caso, existem opiniões controvertidas de toda uma legião de famosos críticos e historiadores de arte acerca do quadro "Sagrada família", pertencente à Coleção Kress da National Gallery de Washington. 
Veja como divergem as opiniões dos experts:  
 a) Berenson - "autoria entre Catena e o jovem Ticiano" ( e mais tarde, em sua obra Italian Pictures of the Renaissance, algo inopinadamente: "Giorgione"); 
 b) L. Venturi - "É um Catena"; 
 c) Borenius - "Mestre da Natividade Allendale"; 
 d) Longhi  - " É um Gorgione"; 
 e) G.M. Richter - "É um Giorgione, mas a paisagem é de Sebastiano Del Piombo"; 
 f)  H. Tietza - É de um aluno desconhecido de Giovanni Bellini"; 
 g) Venturi - É de um intérprete de Giorgione, mas não do próprio Giorgione". 
  Todos, acima mencionados experts são unânimes em considerar a obra em apreço como pintura de alta qualidade, mas em termos já não de crítica de arte e sim de mercado de arte, porque existe uma enorme diferença de preço entre um autêntico Giorgione e o de um autêntico Catena.
                 Estima-se que atualmente metade das obras de arte negociadas no mundo são falsas. Numerosos Van Gogh, 70% dos Chagal e 90 % dos Salvador Dali. Também  Picasso, Rembrandt, Renoir, Klint, Mache são os preferidos dos falsários de nossos dias. 
                 O falsário pintor alemão Edgar Mrugalla  calcula que já copiou cerca de 3.500 quadros de artistas famosos ao longo da vida. Esta enorme produção de obras falsas cria grandes dificuldades para os experts. 
                  No caso brasileiro o problema das expertises não é tão complexo, nem tão controvertido, pois são artistas recentes e muitos ainda estão vivos. Mesmo para os mortos há ainda, entre os marchands, críticos e amadores de arte, uma lembrança muito nítida das obras mais importantes como, por exemplo, dos criadores do modernismo brasileiro. Apesar disso, nota-se, cada vez mais pronunciado, o aparecimento de obras de importantes artistas no mercado de falsários e possíveis falsos.
                  Os princípios que regem a expertise são os seguintes: 
                  1 - O expert não deve manifestar-se sobre a qualidade da obra e sim limitar-se ao problema de sua autenticidade; 
                  2 - Quem vende uma obra de arte não pode ser ao mesmo tempo o autor de sua expertise;  
                  3 - O expert pode ser responsabilizado juridicamente, sempre que ficar patente a má fé de qualquer expertise, mas não será culpado quando, de plena consciência, tiver expedido uma opinião que depois foi contestada; 
                  4 - O valor de uma expertise acha-se na razão direta do conceito de que goza quem a assina; 
                   5 - Nenhum expert, digno de nome, jamais fará considerações de ordem financeira ou se referirá aos preços do mercado. Limitar-se-á apenas à autenticidade da obra.
Nicéas Romeo Zanchett 
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sábado, 9 de agosto de 2014

A ARTE DA COMPOSIÇÃO LITERÁRIA - LONGINO


A ARTE DA COMPOSIÇÃO LITERÁRIA 
                 Mas visto que os sentimentos e a linguagem das composições literárias melhor se explicam pela luz que umas sobre as outras lançam, consideremos agora o que resta dizer com respeito à "Dicção". E neste ponto não se pode, creio, negar que uma escolha judiciosa de termos aptos e magníficos é sobremaneira própria para obter e manter a atenção de uma assembléia. 
                 Porque é disto que os grandes autores tiram com escrupuloso cuidado a grandeza, a beleza, a solenidade, o peso, a energia e a força das suas expressões. Isto veste uma composição literária do mais belo traje, fá-la brilhar como um quadro em toda a alegria da cor, e, numa palavra, anima os nossos pensamentos e dá-lhes uma vida como que vocal. Mas é desnecessário demorarmo-nos neste ponto diante  de pessoa de tanto gosto e experiência. As palavras belas são na verdade a luz especial com que devem brilhar os nossos pensamentos. Mas de modo algum é próprio que em toda a parte sejam túmidos e pareçam grandes. Porque vestir um assunto trivial de expressões grandiosas e grandiloquentes faz o mesmo efeito ridículo que faria a enorme mascara dum ator trágico no rosto pequeno de uma criança. 
                  .... (O princípio desta seção perdeu-se, lamentavelmente)... Neste verso de Anacreonte, os termos são banais, mas há nele uma simplicidade que agrada, porque é natural:  
Nem este Trácio me ralará!
                  E por esta razão me parece aquela celebre expressão de Teopompo, uma das mais significativas que tenho visto conquanto Cecílio nela encontre que censurar: "Felipe, diz ele, costumava engolir injúrias quando as exigências da sua política o tornavam conveniente."
                  Os termos banais são às vezes muito mais expressivos do que poderiam ser os mais escolhidos. Facilmente se compreendem porque tirados da nossa vida quotidiana; e o que nos é mais familiar, mais depressa obtém o nosso assentimento. Portanto, quando um indivíduo, para conseguir os seus fins ambiciosos, suporta injúrias e responde não só pacientemente, mas em aparência mesmo agradavelmente, dizer que ele  engole injúrias é uma das frases mais aptas e expressivas que se podem inventar. O seguinte trecho de Heródoto aproxima-se muito, a meu ver, do efeito do outro: " Cleomenes, sendo tomado de loucura, cortou com uma faca a sua carne em pedaços, até que,tendo retalhado o corpo completamente, morreu."  E, noutro ponto, Pites, tendo ficado no navio, lutou corajosamente, "até que o fizeram em pedaços." Estas expressões são quase banais, mas a sua significação está longe de o ser. 
                 Quanto ao número de metáforas que se deve usar, Cecílio é da opinião daqueles que acham que se não devem usar mais de duas ou tês na expressão do mesmo assunto. Mas nisto também seja Demosthenes o nosso guia; lendo-o, veremos que a ocasião de as empregar é quando as paixões estão tão desencadeadas que avançam como torrente, arrastando toda uma multidão de metáforas. 
                 "Essas almas prostituídas, esses traidores agachados, essas fúrias da República, que se combinaram para ferir e retalhar a sua pátria, que sorveram a sua liberdade em saúdes, primeiro a Felipe e depois a Alexandre, medindo a sua felicidade pela sua gula e pela sua luxúria. Quanto àqueles grandes princípios de honra e àquela máxima de nuca suportar um senhos, que eram para os nossos valorosos maiores a alta ambição da vida e a norma da felicidade - a esses subverteram eles completamente." 
                  Aqui por meio desta abundância de tropos, desencadeia o orador sobre os traidores o fervor da sua indignação. É porém preceito de Aristóteles e de Theofrasto que que as metáforas arrojadas devem ser de ligeiras atenuantes, tais como, se assim posso dizer, e por assim dizer, e se me posso exprimir com esta audácia.  Porque esta desculpa preliminar atenua muito, dizem eles, a violência dos tropos. 
                  Esta regra será boa para uso geral, e por isso a admito; mas continuo a sustentar o que antes disse com respeito a figuras de retórica; que metáforas arrojadas, e essas também em abundância, não são deslocadas numa composição literária nobre, onde constantemente as mitiga e atenua a veemência patética e sublimidade generosa dispersas pela composição  total. Porque, como é de natureza do patético e do sublime, o correr rapidamente, arrastando tudo, exigem que as figuras que os expressãm sejam enérgicas e incisivas, e não dão a um ouvinte o tempo preciso para poder ser crítico da sua multiplicidade, porque diretamente lhe ferem a imaginação e lhe comunicam a veemência e a energia. 
                  Admita-se de momento a possibilidade dum escritor impecável e acabado, e então valerá a pena examinar na generalidade este ponto importante; se, em poesia ou prosa, o que é verdadeiramente grande de mistura com alguns defeitos valerá mais do que o que, nada tenho de extraordinário nos seus melhores trechos, é contudo inteiramente correto e sem defeito? E, mais, se a excelência do bem-escrever consiste o número das suas belezas ou na grandeza dos seus rasgos? 
                   De bom grado admito que os escritores de um gênio alto e dominador nem sempre são puros e corretos, visto que o que é de princípio ao fim acurado e polido deve tender extremamente a ser chão. No sublime, como numa afluência demasiado rica, alguns pormenores menos importantes escaparão inevitavelmente à observação. Mas é quase impossível a um engenho chão o cair em erro, visto que nunca a isso se arrisca, voando alto ou tentando ser sublime, visto que continua sempre no mesmo caminho uniforme e seguro, ao passo que a própria grandeza e arrojo do sublime expõe a quedas súbitas. Nem ignoro ainda outra, a qual sem dúvida objetarão, e é que ao criticar as obras dum autor, sempre notamos as suas imperfeições, de modo que a memória dos seus defeitos perdura no espírito, ao passo que a das suas qualidades depressa se nos esvai.  Quanto a mim, tenho tomado nota de não poucas imperfeições de Homero e de outros dos maiores autores, às quais não posso ser cego; tenho-as, porém, não por defeitos voluntários, mas antes por lapsos causais acontecidos por inadvertência; tais com os que, quando o espírito está entregue a assuntos de natureza elevada, insensivelmente penetram nas composições literárias. E por isto dou como minha opinião final que os rasgos grandes e nobres, conquanto não ostentem uma perfeição igual, devem ainda assim levar a palma, pelo único mérito da sua grandeza intrínseca. 
                   Apolônio, autor da Argonáutica, era um escritor impecável; e ninguém escreveu melhores pastorais do que Theócrito, excetuando algumas composições  em que ele se desviou do seu gênero. Mas apesar disso tudo, preferireis se Apolônio ou Theócrito a ser Homero? O poeta Eratósthenes, cuja Erigona é uma composição completa e mimosa e sem um único defeito, deverá ser considerado superior como poeta a Archiloco, que tem muitas e arrojadas irregularidades, um espírito divino arremessando-se na sua nobre carreira, um espírito que se não dobra às regras nem facilmente se deixa inibir? Na lírica, querereis antes ser Bacchylides do que  Píndaro ou Io de Chios do que o grande Sófocles?  Bacchylides e Io escreveram suave, mimosa e corretamente, nada deixaram que não fosse polido; mas em Píndaro e Sófocles, que levam fogo consigo pela rapidez do seu movimento, esse próprio fogo muitas vezes se lhes apaga, e então caem misevavelmente. Mas tenho a certeza de que não há ninguém de gosto que hesite em preferir o simples Édipo de Sófocles a tudo quanto Io escreveu. 
                  Se as excelências dos autores tem de ser apreciadas pelo seu número, e não pela  sua qualidade ou grandeza,  então Hiperides tem de ser considerado muito superior a Demosthenes. Tem mais harmonia e melhor cadência, um maior número de belezas e estas de um grau quase excepcional.  Parece um campeão que, tendo-se feito senhor dos cinco exercícios, em cada um deles deve ceder a outrem a primazia, mas em todos juntos permanece único e sem rival. Porque Hiperides em tudo, exceto na estrutura das palavras, imitou as qualidades de Demosthenes, juntando-lhe a beleza grandiosa de Lísias. Quando o seu assunto exige simplicidade, o seu estilo é extremamente suave; nem dá expressão a tudo com a mesma ênfase veemente do que Demosthenes. Os seus conceitos são sempre justos e apropriados, temperados por uma doçura deliciosa e suave harmonia de palavras. Os seus ditos de espírito são  inconcebivelmente finos. Provoca o riso com uma arte magistral e é grande a sua destreza na ironia ou no escarno. O seu modo de motejar está longe de ser grosseiro, nem é nunca excessivo como o dos imitadores degenerados da concisão atica; é, pelo contrário, natural e próprio. Que arte não tem em fugir a um argumento! Com que graça ridiculariza, e com que destreza fere em meio de um sorriso! Numa palavra, há uma graciosidade inimitável em tudo o que diz. Nunca ninguém com mais arte comoveu; ninguém houve mais difuso na narrativa; ninguém mais hábil em abandonar e retomar um assunto com tanta facilidade e sutileza. Vê-se isto claramente nas suas pequenas fábulas poéticas de Latona; e, de mais a mais, compôs uma oração fúnebre cuja pompa e ornatos creio que nunca foram nem virão a ser ignorados. 
                    Demosthenes, pelo contrário, não foi bem sucedido na descrição das tendências e caracteres dos homens; a eloquência difusa era-lhe desconhecida; desajeitado na sua apresentação; falho de pompa e de esplendor na sua linguagem; e, numa palavra, deficiente na maioria das qualidades que caracterizam Hiperides. Onde o assunto o obriga a ser alegre ou jocoso, faz rir com efeito, mas é dele. E Quanto mais se esforça por gracejar, mais longe está de o fazer. Se alguma vez tivesse tendado um discurso a favor de uma Frine ou de um Atenógenes, essas tentativas só teriam feito dele um péssimo exemplo para Hiperides. 
                  E, apesar de tudo, a me ver, as numerosas belezas de Hiperides estão longe de ter qualquer grandeza intrínseca. Mostram a sobriedade serena do engenho do autor, mas não tem alma nem para animar nem para entusiasmar uma assembléia. Ninguém que o leia se sente tomado de qualquer emoção extraordinária. Ao passo que Demosthenes, juntando a uma constante grandeza de inspiração e magnificência de frase (as maiores qualidades de um orador) tais rasgos de paixão, tal cópia de palavras, tal rapidez no falar; e, o que constitui o seu gênio especial, tal energia e veemência com os maiores autores não ousaram aspirar a atingir; tendo, repito, em abundância todas estas qualidades divinas (seria pecado chamar-lhe humanas), - excede a todos que o precederam, em belezas que lhe são próprias; e para compensar as deficiências nas qualidades que não tem, vence todos os adversários pela força irresistível e relampaguear deslumbrante da sua eloquência. Porque é mais fácil ver com olhos firmes e não deslumbrados o clarão do relâmpago do que aqueles rasgos ardentes do patético que tão rapidamente se sucedem nas suas orações. 
                   O paralelo entre Platão e os seus adversários deve ser feito de um ponto de vista diferente. Porque Lísias não só lhe é inferior na excelência geral, mas também no número das suas belezas. E, o que é mais, não só fica aquém dele no número das suas belezas, mas excede-o de muito na quantidade dos seus defeitos.   
                  Que devemos nós supor, portanto, que tinham em vista aqueles escritores divinos que tanto se empenharam em levantar as suas composições ao mais alto ponto do sublime, e olharem com desprezo para a correção? Entre outras, aceite-se esta explicação. A natureza nunca tencionou que o homem fosse um animal rastejante e acanhado, mas trouxe-o para a vida e colocou-o no mundo como num teatro apinhado, não para ser um espectador ocioso, mas levado por sede ansiosa de vencer, para lutar ardentemente pela posse da glória. Para este fim lhe pôs ela na alma um amor invencível da grandeza, e um constante rivalizar com o que mais ele parece aproximar-se da divindade. É por isso que todo o universo  não basta para o alcance enorme e especulação penetrante do entendimento humano. Passa os limites do mundo material e gostosamente se lança pelo espaço infinito. Que cada um de vós examine de perto uma vida que em cada cena seja notável pela sua grandeza, beleza, excelência, e breve perceberá os nobres fins para que nascemos. Assim, o impulso natural faz com que admiremos, não o regato pequenino e transparente que nos mata a sede, mas o Nilo, Ister, o Rheno, ou, muito mais ainda, o Oceano. Nunca nos causa surpresa o pobre lume que arde claro e se apaga na nossa lareira, mas assombra-nos os fogos celestes, conquanto muitas vezes os obscureçam as nuvens e os eclipses.  Nem há nada na natureza que mais nos maravilhe do que as fornalhas ardentes do Etna, que vomitam pedras, e às vezes rochedos inteiros, do seu abismo laborante, e espalham rios inteiros de chama líquida e una. E disto podemos concluir que quando é útil e necessário ao homem está ao nível do seu alcance e facilmente se obtêm; mas tudo quanto excede o tamanho vulgar é sempre grandioso e sempre assombra.  
                  Com respeito, portanto, àqueles escritores sublimes cujo voo,  por alto que seja, nunca perde a sua utilidade e vantagem, temos outra consideração a acrescentar. As belezas de ordem inferior mostram que os seus autores são homens, mas o sublime aproxima-se de Deus. O que é correto e impecável apenas escapa à censura, mas o grande e sublime provocam a admiração. Que mais terei para dizer? Um sentimento elevado e sublime naqueles nobres autores compensa amplamente todos os seus defeitos. E o que é mais notável é que se os erros de Homero, Demosthenes, Platão, e outros dos mais célebres autores, se coligissem, nem de longe o seu número se aproximaria daquelas excelências infinitas e inimitáveis que são tão patentes neste heróis da antiguidade. E é por isto que todas as épocas e todas as gerações, imparcialmente tem concedido a estes grandes estes os louro que ainda estão verdes e imarcescíveis nas suas fontes. 
                  Certo escritor objeta neste ponto que um colosso mal esculpido não vale uma  estatueta impecável, por exemplo, o soldado de Policleto; mas mas a resposta a isto é evidente. Nas obras de arte olhamos às proporções exatas; nas da natureza  à grandeza e à magnificência. Ora, a linguagem é um dom que a natureza nos fez. Portanto, assim como a semelhança e a proporção em vista dos originais são precisas nas estátuas, assim na nobre faculdade de falar deve haver qualquer coisa de extraordinário, qualquer coisa de mais que humanamente grande... (O primeiro da seção sobre hipérbole perdeu-se). Esta hipérbole, por exemplo, é extremamente má: " Se não lavares os miolos nas solas dos pés e os pisares." Temos sempre de atender, portanto, a uma consideração: até que ponto pode o pensamento ser levado com propriedade. Porque ir além daquilo que é próprio, muitas vezes estraga a hipérbole; e o que é esticado de mais, relaxa-se e perde o tom; mais, produz por vezes um efeito contrário ao que se queria obter. Assim, Isócrates, infantilmente desejoso de não dizer nada sem exagero, deu em puerilidade vergonhosa.  O fim e objeto do seu Panegirico é provar que os atenienses foram maus uteis à Grécia em geral do que os espartanos; e eis como ele principia: "A  virtude e eficiência da eloquência é tão grande que pode tornar despiciendas as grandes coisas, vestir os assuntos triviais com pompa e ornamento, dar um traje novo ao que é velho e obsoleto e dar a coisas recentes um ar de antiguidade." Quem não perguntará imediatamente: É isso o que ides fazer com respeito aos atenienses e espartanos?  Porque este descabido encomio da eloquência é uma advertência insciente aos ouvintes para que não o escutem ou não lhe deem crédito. 
                  São melhores, em resumo, aqueles hipérboles (como já antes observei das imagens) que não tem a aparência nem o aspecto de hipérboles.  E esta é sempre a natureza daquelas que, no calor de uma paixão, aparecem no meio de um assunto de monta. Assim Thucidides aplicou com destreza um hipérbole aos seus compatriotas que morreram na Sicília. "Os siracusanos, diz ele, desceram sobre eles e trucidaram especialmente os que estavam no rio. A água imediatamente tinta de sangue. Mas estar o rio sujo de lama e sangue não evitou que eles o bebessem ávidamente, nem que mutos deles lutassem desesperadamente para chegarem à água." Uma circunstância tão rara e comovente dá à quelas expressões de beber lama e sangue, e lutar desesperadamente para beber, Um ar de probabilidade. 
                   As hipérboles são, literalmente, impossibilidades, e portanto só podem ser razoáveis ou produtoras de sublimidade onde as circunstâncias admitem o exagero, para que possam sempre parecer importantes e grandiosas.  
                   Heródoto usou uma hipérbole idêntica com referência à queles guerreiros que caíram na Thermópilas: "Neste ponto se defenderam com as armas que lhes restavam, e com unhas e dentes, até ficarem soterrados sob as setas dos bárbaros." 
                 Será impossível, perguntais, que homens se defendam a dente contra a fúria de adversários armados? Será possível que homens possam ser soterrados por setas? Mas, apesar de tudo isto, há no caso uma sombra de probabilidade. Porque não é a circunstância que parece ter sido adaptada à hipérbole, mas a hipérbole parece ser resultado  inevitável da circunstância. Porque a aplicação destas figuras apenas onde o calor da ação ou a impetuosidade da paixão as exige (ponto que nunca deixarei de insistir) bastante atenua a mitiga a audácia de expressões demasiado arrojadas. O mesmo se dá na comédia, onde circunstâncias de todo absurdas e incríveis ficam muito bem, porque estão de acordo com seu fim, que é provocar o riso. Sirva de exemplo este trecho: "Ele possui um bocado de terreno do tamanho de uma carta espartana." Porque o riso é uma paixão que nasce de qualquer  íntimo prazer. 
                   Mas as hipérboles servem geralmente para dois fins: aumentam e diminuem. Levam qualquer coisa além do seu tamanho natural em ambos os casos. E a força de expressão (a outra espécie de hipérbole) aumenta a baixeza de qualquer coisa, ou acentua a trivialidade das coisas triviais. 
BREVE BIOGRAFIA DE "LONGINO". 
               Dionísio Cássio Longino, o primeiro retórico, crítico e expositor de filosofia do seu tempo, e tido por alguns como o melhor crítico da antiguidade, nasceu, provavelmente na Síria, no ano 203 da nossa era. Foi discípulo de Orígenes em Alexandria, e estabeleceu-se em Atenas como professor de literatura e oratória, ganhando uma enorme fama, não só como uma viva enciclopédia, mas também pelas suas faculdades de intuição e de crítica. No fim da vida foi preceptor dos filhos de Zenóbia em Palmira, e o seu principal conselheiro político; derrotada ela por Aureliano, foi condenado à morte com traidor. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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