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sábado, 23 de agosto de 2014

O QUE É UM VERDADEIRO EXPERT

Por Nicéas Romeo Zanchett 
Pintura SAMBISTAS de Romeo Zanchett 
Pastel sobre Papel Canson 
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                   Hoje se usa com muita prodigalidade o vocábulo expert. Não há um marchand-de-Tableux ou crítico de arte recém improvisado que não o seja. Mas o que é, afinal, um expert? 
                    Meu saudoso amigo Jorge Beltrão, com quem aprendi muita coisa sobre a verdadeira obra de arte, uma vez me disse: "Um homem que em toda a sua vida viu apenas um Di Cavalcanti não pode saber se é bom ou mau. Se viu dois, um terá sido melhor que o outro. Quando tiver visto
e estudado uma centena de obras do mesmo artista, sua opinião terá alguma probabilidade de ser realmente válida. E quando tiver visto mil, estará em vias de se tornar um expert, evidentemente, sobre aquele artista.  Para quem não teve o prazer de conhecer, Jorge Beltrão foi um dos mais conceituados marchands do Brasil. Teve galeria de arte e loja de móveis coloniais na rua São Clemente, 74 , em Botafogo - Rio de Janeiro. Trabalhei com ele de 1973 a 1979). 
                    Um expert é, pois, alguém que pelo estudo profundo e paciente, adquiriu conhecimento particular acerca de um determinado artista ou escola, e pode portanto, com autoridade, emitir opiniões sobre a autenticidade de uma determinada obra pertencente àquele artista, àquele período ou àquela escola.  A ação do expert restringe-se, forçosamente, ao campo do conhecimento de sua especialidade: Uma opinião de Bernard Berenson sobre uma pintura italiana do Renascimento terá logicamente muito maior força que outra opinião do mesmo expert acerca de, por exemplo, um quadro holandês da mesma época. 
                   Evidentemente, mesmo o melhor expert pode equivocar-se (e frequentemente o fazem), ou discordarem entre si. No primeiro caso é prova e logro de que foi vítima o célebre expert holandês  Abraham Bredius atestando a autenticidade de um Vermeer de Delf pintado por Vam Meegeren, autor da obra tão perfeita que o próprio falsário teve de provar em juízo, depois da Segunda Guerra Mundial, que sua pintura era falsa;  no caso, existem opiniões controvertidas de toda uma legião de famosos críticos e historiadores de arte acerca do quadro "Sagrada família", pertencente à Coleção Kress da National Gallery de Washington. 
Veja como divergem as opiniões dos experts:  
 a) Berenson - "autoria entre Catena e o jovem Ticiano" ( e mais tarde, em sua obra Italian Pictures of the Renaissance, algo inopinadamente: "Giorgione"); 
 b) L. Venturi - "É um Catena"; 
 c) Borenius - "Mestre da Natividade Allendale"; 
 d) Longhi  - " É um Gorgione"; 
 e) G.M. Richter - "É um Giorgione, mas a paisagem é de Sebastiano Del Piombo"; 
 f)  H. Tietza - É de um aluno desconhecido de Giovanni Bellini"; 
 g) Venturi - É de um intérprete de Giorgione, mas não do próprio Giorgione". 
  Todos, acima mencionados experts são unânimes em considerar a obra em apreço como pintura de alta qualidade, mas em termos já não de crítica de arte e sim de mercado de arte, porque existe uma enorme diferença de preço entre um autêntico Giorgione e o de um autêntico Catena.
                 Estima-se que atualmente metade das obras de arte negociadas no mundo são falsas. Numerosos Van Gogh, 70% dos Chagal e 90 % dos Salvador Dali. Também  Picasso, Rembrandt, Renoir, Klint, Mache são os preferidos dos falsários de nossos dias. 
                 O falsário pintor alemão Edgar Mrugalla  calcula que já copiou cerca de 3.500 quadros de artistas famosos ao longo da vida. Esta enorme produção de obras falsas cria grandes dificuldades para os experts. 
                  No caso brasileiro o problema das expertises não é tão complexo, nem tão controvertido, pois são artistas recentes e muitos ainda estão vivos. Mesmo para os mortos há ainda, entre os marchands, críticos e amadores de arte, uma lembrança muito nítida das obras mais importantes como, por exemplo, dos criadores do modernismo brasileiro. Apesar disso, nota-se, cada vez mais pronunciado, o aparecimento de obras de importantes artistas no mercado de falsários e possíveis falsos.
                  Os princípios que regem a expertise são os seguintes: 
                  1 - O expert não deve manifestar-se sobre a qualidade da obra e sim limitar-se ao problema de sua autenticidade; 
                  2 - Quem vende uma obra de arte não pode ser ao mesmo tempo o autor de sua expertise;  
                  3 - O expert pode ser responsabilizado juridicamente, sempre que ficar patente a má fé de qualquer expertise, mas não será culpado quando, de plena consciência, tiver expedido uma opinião que depois foi contestada; 
                  4 - O valor de uma expertise acha-se na razão direta do conceito de que goza quem a assina; 
                   5 - Nenhum expert, digno de nome, jamais fará considerações de ordem financeira ou se referirá aos preços do mercado. Limitar-se-á apenas à autenticidade da obra.
Nicéas Romeo Zanchett 
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domingo, 9 de março de 2014

A NATUREZA É A VERDADEIRA MUSA DAS ARTES


A NATUREZA É A VERDADEIRA MUSA DAS ARTES
Por Nicéas Romeo Zanchett 
                   A arte e a natureza são combinações de cores, de linhas, sons e palavras. Ela sempre inspira a arte. Os campos, as matas, as plantas, os rochedos, os animais, o mar, o céu e o próprio homem são musas originais para o artista. 
                   Em toda a obra de arte, a qualidade suprema é o divino natural. Charles Darwin dizia que antes de falar o homem cantou como uma ave.


                   A arte da música traduz as imagens sensíveis de nossa alma. Pela variedade de timbres ela desnuda os nossos sentimentos. 
                   Os ruídos da natureza estão gravados em nossas origens ancestrais e continuam intimamente ligados às nossas fantasias e percepções. 

                   O vento circulando entre as árvores; o som da cachoeira e a permanente inquietude das ondas do mar batendo nas praias, são fontes incessantes para o artista. Os nossos sentidos estão constantemente permutando informações visuais e sonoras com o ambiente onde vivemos. 
                   Todas esses fenômenos naturais são percebidos pela energia cósmica que nos deu vida; é ela que, "através do pensamento" (que é invisível), conecta-se ao cérebro e o faz agir e reagir de acordo com a capacidade intelectual de cada um. A energia vital do artista tem enorme quantidade de conexões com outras energias que circulam pelo cosmos, e é exatamente por isso que recebe informações e as transforma em arte. O artista que nasce sabendo tocar piano, por exemplo, só o faz porque sua energia cósmica está conectada com a "energia cósmica" de alguém que já foi um grande pianista. O pensamento desse artista não tem origem no seu cérebro; ele é um fenômeno invisível que serve para transmitir as informações mandadas pela sua energia e assim, através do cérebro,  ele comanda seu talento para a realização da sua arte.

                  A escultura exprime as formas e faz abstração da cor como qualidade desprezível. Um corpo tem variadas dimensões que projeta em nossos olhos, conforme o ângulo de visão, imagens diferentes. Dessa forma, um olho vê uma imagem diferente da que o outro olho vê. Se fecharmos um olho teremos um formato; invertendo a posição veremos outra imagem. A diferença das duas imagens ou visão binocular nos permite apreciar as perspectivas do objeto e sua extensão em profundeza. 
Escultura de Romeo Zanchett 

                 Já na pitura as imagens se mostram de forma igual para os dois olhos. Assim, a pintura numa tela plana, qualquer que seja o estilo, nos mostra a visão do artista naquele momento que a pintou. 
                 A natureza nos fornece imagens tomadas de vários ângulos, várias distancias e perspectivas. O artista combina-as e expressa em cores a sua visão e sentimentos daquele instante. Portanto, se o mesmo artista pintar a mesma paisagem em momentos diferentes elas serão diferentes, com cores e expressões diversas. 
                  Segundo cálculos de Wallaston, a luz do sol é 800.000 vezes mais intensa que a da lua cheia em noite de céu estrelado.  Estas influências da natureza alteram os nossos sentimentos, ações e formas de expressão. 
                  Se observarmos com acuidade, olhando para o passado, veremos que muitos dos grandes artistas nunca foram compreendidos. É que sua visão de mundo era diferente da visão de outas pessoas. Todo o verdadeiro artista gosta de estar junto à natureza, e o burburinho da cidade lhe incomoda. Mesmo que não possa estar onde deseja, seu pensamento lhe permite viajar no tempo e no espaço como uma águia livre que voa contra o vento. 
Nicéas Romeo Zanchett 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

OBRAS DE ARTE ORIGINAIS E FALSAS- Por Romeo Zanchett

Obra Ilustrativa 
Pintura acrílica de Romeo Zanchett 
OBRAS DE ARTE ORIGINAIS E FALSAS
                     Obra original é aquela cuja autenticidade não existe nenhuma dúvida. 
                     Falsos existiram e existirão sempre, pois o valor financeiro de uma obra de arte acompanha a sua qualidade tal como a sombra acompanha o corpo que a projeta. 
                     Dossena, Batianini, Van Meegeren, foram falsários notáveis, quase geniais.  Na atualidade um dos falsários mais famosos é, sem dúvida, Edgar Mrugalla. Ele próprio diz que já perdeu a conta de quantos quadros copiou para seus clientes, mas calcula que foram mais de 3.500 obras. 
                    Muitas pessoas adquirem obras falsas sabendo da sua real condição. Estão apenas querendo ter na parede uma obra supostamente famosa para expor aos amigos. Na verdade eles não tem nenhum interesse ou amor pela arte, mas apenas as usam para provar sua boa condição social e financeira. Muitas vezes, quando esta pessoa morre ou se desfaz de sua obra falsa, ela acaba no mercado. É por existirem pessoas assim que o mercado de falsário é tão lucrativo. 
                   Cálculos  estimativos indicam que cerca de metade das obras de arte negociadas no mundo são falsas. Sempre são de pintores muito valorizados. Numerosos Van Gogh, 70% dos Chagal, 90% dos Dali. Também pintores como Picasso, Rembrandt, Renoir, Gustav Klint, são os preferidos dos falsários de nossos dias. 
                   No Brasil também possuímos os nossos falsários, alguns ocupados em parodiar a produção de grandes artistas modernos e contemporâneos, para os quais sabem que existe mercado. 
                   É preciso ter a noção nítida e precisa do que se entende por falsificador; alguém que, com finalidade dolosa, forja e passa adiante obras de arte. O aluno que, na Academia, executa uma cópia com finalidade de auto-disciplinar-se, evidentemente, não é um falsário, mas um copista. 
                   Os falsos podem ser facilmente desmascarados pelo olho treinado de um especialista e  (sobretudo no caso de pintura antiga) por exames físico-químicos de laboratório como, por exemplo, o de carbono 14. 
                   Original, cópia, réplica, obra de atelier, obra no estilo de um determinado artista, obra da escola de determinado artista são diferentes noções que convém ter presentes na fixação do preço; ao passo que o falso constitui uma violação da lei e anula o seu preço. 
                   No caso particular da gravura, considera-se original aquela produzida por determinado artista e tirada por ele próprio, ou sob seu controle direto. É preciso saber que também existe muitas gravuras falsas no mercado; elas foram produzidas por falsários, sem o controle ou conhecimento do artista. 
Nicéas Romeo Zanchett 

quinta-feira, 28 de março de 2013

A COMPOSIÇÃO DA PINTURA - Por Leonardo Da Vinci

Uma aula com Da Vinci.


A COMPOSIÇÃO DA PINTURA 
Por Leonardo da Vinci

COMO SE REPRESENTA UMA TEMPESTADE 
     Para formar uma ideia justa duma tempestade, devemos considerar atentamente os seus efeitos.  Quando o vento sopra violentamente por sobre o mar ou terra, desloca e leva consigo tudo oque não está firmemente fixo à massa geral.  As nuvens devem parecer dispersas e com rotas arrastadas na direção e conforme a força do vento, e confundidas com nuvens de areia  que se levantam da praia; devem representar-se ramos e folhas de árvores, como impelidas pela violência do vento, juntamente com outras inúmeras e leves substâncias, espalhadas no ar. As árvores e erva devem estar curvadas para o chão, como que cedendo à carreira do vento. Os ramos devem estar torcidos fora do seu natural, com as folhas voltadas e emaranhadas. 
     Quanto ás figuras dispersas na pintura, devem algumas aparecer arrojadas ao chão, tão envolvidas nos seus mantos e cobertas de pó que mal possam distinguir.  Das que ficaram de pé, umas devem estar abrigadas e segurando-se com força por de traz de algumas grandes árvores, para escaparem à mesma sorte; outras inclinadas para o chão, protegendo a cara do pó, com as mãos, os cabelos e roupas voando para o ar à mercê do vento.
     As grandes e tremendas vagas do mar tempestuoso devem estar cobertas de espuma, cujas partes mais tênues sejam levadas pelo vento, como se fossem uma névoa intensa, misturada com o ar. 
     Os navios que se vejam, devem ser representados com o cordame arrebentado e as velas rotas. Uns com mastros partidos, derrubados e o casco todo adornado entre as vagas alterosas. Parte da tripulação aparecerá como chamando em alto grito por socorro e agarrada aos restos do desmantelado navio. As nuvens parecerão atiradas por tempestuosos ventos de encontro aos cumes de altas montanhas, envolvendo-as, quebrando-se como ondas contra uma costa de rochedos. A atmosfera será representada medonhamente obscurecida pelo nevoeiro, pelo póe pelas grossas nuvens. 

NOTA: - Como podemos observar, Leonardo Da Vinci, antes de executar uma obra, fazia uma espécie de roteiro a ser seguido. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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                                              COMO COMPOR UMA BATALHA
     Primeiro a atmosfera deverá apresentar uma mistura confusa de fundo proveniente das descargas de artilharia e mosquetaria, e do pó levantado pelos cavalos dos combatentes; Observaremos que o pó, que sobe a terra, é pesado, mas no entanto, em razão das suas ínfimas partículas, é facilmente impelido para cima e misturado com o ar; Apesar disso, cai naturalmente de novo e só as suas partes mais sutis é que alcançam alguma considerável altitude, tornando-se na parte mais alta, tão fino e transparente, que quase parece da cor da atmosfera.
      A fumaça assim misturada com a atmosfera cheia de pó, forma uma espécie de nuvem negra, no cimo da qual ela se destaca do pó por uma  expressão azulada, pois o pó conserva mais a sua cor natural. Do lado de onde vem a luz, esta mistura de ar, fumaça e pó, parecerá muito mais brilhante do que do lado oposto. 
     Quanto mais envolvidos estiverem os combatentes neste tumultuoso nevoeiro, menos distintamente visíveis serão, e as suas luzes e sobras serão mais confusas. Tinjamos duma cor avermelhada, os rostos e corpos dos mosqueteiros e todos os objetos próximos, mesmo a atmosfera ou uma nuvem de pó; Em resumo tudo quanto os rodear. esta tinta avermelhada irá desvanecendo à medida que os objeto estiverem afastados da causa inicial.
     O grupo de figuras que aparece a certa distância entre o espectador e a luz, formará uma massa escura sobre um fundo claro; e as suas pernas serão tanto mais indecisas e obscuras quanto mais próximo do solo, onde o pó é mais pesado e denso. 
     Se quisermos representar alguns cavalos perdidos, galopando fora do corpo principal, introduziremos também uns pequenos rolos de pó, tão separados uns dos outros  como os saltos do cavalo, e estes pequenos rolos ir-se-ão tornando mais fracos, raro e desvanecidos,  à   proporção que o cavalo os vai deixando para trás. Por consequência aquele que estiver mais perto dos pés do cavalo, será o melhor determinado, mais pequeno e mais denso de todos. 
     A atmosfera deverá apresentar-se atravessada em todas as direções por frechas; umas subindo, outras descendo e outras voando horizontais. As balas dos mosquetes, conquanto se não vejam, serão indicados na sua trajetória por um rasgo de fumaça, que se destaca dentre a confusão geral. As figuras no primeiro plano deverão teros cabelos cobertos de pó, assim como as sobrancelhas e todas as partes suscetíveis de o reter. 
     O partido vencedor correrá para frente, os cabelos e coisas leves voando ao vento, as sobrancelhas carregadas e o movimento de todos os membros propriamente combinado; por exemplo, ao atravessar o pé direito o braço esquerdo deverá vir à frente também. Se quisermos representar algum deles caindo, marcaremos o vestígio da queda no pó coberto de sangue coagulado e escorrendo; e onde  a terra estiver menos impregnada de sangue, deixaremos ver os sinais dos pés dos homens e cavalos que por ali passaram. Representaremos alguns cavalos arrastando os corpos dos seus cavaleiros e deixando atrás de si um sulco aberto pelo corpo assim rojado. 
     As fisionomias dos que vão sendo vencidos deverão aparecer pálidas e abatidas. As sobrancelhas levantadas e muitas rugas pela testa e pelas faces.  As suas narinas um pouco dilatadas, formando várias rugas arqueadas terminando nos cantos dos olhos, rugas que são produzidas pelo abrir e levantar das narinas. O lábio de cima levantado, deixando ver os dentes. As bocas abertas e exprimindo violentas lamentações. Poderá um ficar caído no chão ferido, esforçando-se por amparar o corpo com uma mão e tapando os olhos com a outra, de palma voltada para o lado do inimigo. Outros fugindo e com as bocas abertas parecendo gritar. Por entre as pernas dos combatentes o chão deve estar juncado de toda a qualidade de armas como escudos partidos, lanças, espadas, etc. Devemos apresentar diversos cadáveres, uns completamente cobertos de pó, outro só em parte; o sangue que parece sair imediatamente da ferida, deverá ter a sua cor natural e escorrer em fio tortuoso até que, misturando-se com o pó, forme uma espécie de lama avermelhada. Alguns poderão estar na agonia da morte; os dentes cerrados, os olhos desvairadamente fitos, os punhos fechados e as pernas em contorcidas posições. Outros aparecerão desmaiados e batidos pelo inimigo, mas ainda lutando a murro e a dentes, e procurando tirar uma terrível, ainda que inútil, desforra. Poder-se-á também representar um cavalo perdido sem cavaleiro, fugindo em desordenada aflição; a crina voando ao vento, pisando debaixo das patas tudo o que lhe aparece na frente e causando imenso mal. Poder-se-á também pintar um soldado ferido, meio caído no chão e tentando cobrir-se com o escudo, enquanto um contrário inclinado sobre ele procura dar-lhe o golpe final.  Vários cadáveres amontoar-se-ão debaixo dum cavalo morto.  Alguns dos vencedores, como que parando de combater, estarão limpando a cara do pó misturado com o suor e água dos olhos. 
     O corpo de reserva representar-se-á avançando alegre, mas cautelosamente; as sobrancelhas contraídas fazendo pala das mãos para observar os movimentos do inimigo, por entre as nuvens de pó e fumaça e parecendo todos atentos às ordens do comandante. Poderemos também representar o comandante, brandindo o seu bastão, avançando e apontando para o sítio aonde eles são precisos. Pode-se também introduzir um ribeiro com cavalos a atravessá-lo, chapinhando a água para o ar, e cobrindo toda a terra em volta de água e espuma. Não se deve deixar um só sítio sem sinal de sangue e carnificina. 
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NOTA: Observem como Da Vinci era minucioso. Ele prestava atenção aos mínimos detalhes para só então definir a cena que iria pintar. Agia como um arquiteto projetando sua obra antes de executá-la. 
Nicéas Romeo Zanchett 


                     REPRESENTAÇÃO DE UM ORADOR E DO SEU AUDITÓRIO
                                                     Por Leonardo da Vinci 
              Se tivermos de representar um homem a falar a uma grande assembléia, teremos de considerar o assunto do discurso e adaptar a sua atitude a esse assunto. 
              Se o orador pretende convencer é preciso demonstrá-lo pelo gesto. Se estiver dando uma explicação deduzida de diversos fatos, deverá meter um dedo da mão esquerda entre os dois da direita, e conservar os dois encolhidos, e voltar a cara para o auditório com a boca entreaberta parecendo falar. Se estiver sentado deverá parecer que se vai levantar um pouco, e ter a cabeça inclinada para a frente. 
              Mas se for representado de pé, terá o peito e a cabeça inclinada para a frente para o lado do auditório. Este deverá parecer silencioso, atento, com os olhos fitos no orador em sinal de admiração. Deverá haver alguns velhos com as bocas muito fechadas em sinal de aprovação e os lábios apertados de maneira a fazerem rugas aos cantos da boca e nas bochechas, e na testa ao levantar as sobrancelhas, como que assombrados de espanto. Uns sentados, com as mãos entrelaçadas em volta dos joelhos; outros com uma perna por cima da outra e sobre ela uma mão suportando o cotovelo, e a outra segurando o queixo, coberto de barba venerável. 
                                                  DOS GESTOS DEMONSTRATIVOS 
              A ação pela qual numa figura indica qualquer ponto próximo, quer no sentido de tempo quer na situação, deve ser expressa pela mão ligeiramente afastada do corpo. Mas se esse mesmo ponto estiver muito afastado, a mão deve também estar muito retirada do corpo e a cara da figura voltada para aquela a quem o está a apontar. 
                      SOBRE A ATITUDE DOS CIRCUNDANTES PERANTE ALGUM 
                                               ACONTECIMENTO SENSACIONAL
               Todos aqueles que assistem a um acontecimento digno de menção experimentam a sua admiração, mas de diferentes maneiras como quando a mão da justiça pune um malfeitor.  Se o assunto for um ato de devoção, os olhares de todos os presente estarão fitos na direção do objeto da sua adoração, secundados por vários movimentos de piedade feitos com os outros membros. 
                Se for um caso para rir ou então um caso que inspire compaixão e provoque lágrimas, não será necessário que todos tenham os olhos voltados para o objeto, pois exprimirão os seus sentimentos por diversas maneiras; e será bom apresentar diversas figuras reunidas em grupos afim de se regozijarem ou lamentarem juntas. Se for um acontecimento horrível, os rostos dos que vão fugindo a tal vista exprimirão um grande medo, por meio de vários movimentos, que serão explicados no tratado sobre movimentos.
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NOTA: Esta aula de Da Vinci nos mostra como ele trabalhava para compor uma obra. Era, sem dúvida, um grande observador das atitudes das pessoas e suas maneiras de expressão. Naquele tempo não havia não havia fotografia e Da Vinci costumava desenhar - de forma rápida - todas as pessoas e o cenário que lhe interessava para a futura composição artística; nada escapava ao seu olhar atento e julgador que fizeram dele o grande artista, hoje reconhecido como um dos maiores gênios que a humanidade teve.  Leonardo considerava que o desenho era uma espécie de projeto da obra a ser realizada; hoje, infelizmente, muitos artistas não dão valor ao desenho; alguns nem sequer sabem desenhar. 
Nicéas Romeo Zanchett 





BREVEMENTE CONTINUAÇÃO.....     

   
     



COMO SE DEVE FAZER UMA TRAGÉDIA - Por Aristóteles

                                                                                   
Uma aula com Aristóteles.

                COMO SE DEVE FAZER UMA TRAGÉDIA - Por Aristóteles

                                                 DOS CARACTERES
   Como a constituição das tragedias mais belas não há de ser simples, mas implexa, e há de ser além disso imitadora de coisas que excitem o terror e a compaixão, porque isto é próprio deste gênero de imitação; segue-se, evidentemente, que nem devem introduzir-se homens muito bons e justos, que passem da fortuna para a desgraça, porque isto não é terrível, nem digno de compaixão, mas sim abominável; nem também homens maus, que passem da desgraça para a fortuna, pois que não há coisa menos trágica, porque lhe faltam todos os requisitos que deve ter a tragédia. Porquanto não é conforme os sentidos da humanidade, nem excita compaixão e terror. 
    Finalmente, também um homem muito mau não deve voltar da felicidade para a infelicidade; porque esta composição, bem que fosse conforme os sentimentos da humanidade, não produzia, contudo, compaixão nem terror;  porque a compaixão tem lugar a respeito do que é infeliz sem o merecer; e o terror a respeito do nosso semelhante desgraçado. Pelo que, neste caso, o que acontece nem parece terrível, nem digno de compaixão. 
    Resta pois o homem que está no meio destes extremos.  Este, é aquele que nem se distingue muito pela virtude e justiça, nem também cai em desgraça pela sua malícia própria, mas sim por algum erro, ou defeito. E há de ser alguma personagem das que estão em glória e felicidade, como Édipo, Thiestes e outros homens ilustres de semelhantes famílias. 
     É pois necessário que uma fábula bem constituída seja antes simples, do que composta, como alguns querem, e que a mudança não seja da desgraça para a fortuna, mas, pelo contrário, da fortuna para a desgraça; e finalmente, que não aconteça por maldade, mas por erro ou defeito grande de alguma pessoa, que seja tal qual dissemos; ou quando não, que antes propenda para melhor, do que para pior.
Isto se prova com a experiência; porque antigamente serviam-se os poetas de quaisquer fábulas, que encontravam; mas hoje as mais belas tragédias tomam o seu assunto de um pequeno número de famílias, como são as de Alcmeon, de Édipo, de Orestes, de Meleagro, de Thiestes, de Telefo, e de quaisquer outros que obraram ou padeceram coisas terríveis. 
     A mais bela tragédia, segundo as regras da arte, é aquela que for composta por este modo. Por isso erram os que culpam Eurípedes por observar estas regras nas suas tragédias, e por dar a muitas delas um êxito infeliz, pois que isto é o que deve ser, como já dissemos.
    A prova mais evidente, é que as tragédias deste gênero parecem as mais trágicas de todas, tanto no teatro como nos certames, se forem bem executadas. E o mesmo Eurípedes, posto que não disponha  bem outras coisas, parece, contudo, ser o mais trágico de todos os poetas.
     Segundo gênero de constituição das fábulas (que alguns põem em primeiro lugar), é o que tem uma constituição composta, como a Odisseia, e que se conclui por um modo contrário ao primeiro, tanto a respeito dos homens bons, como dos maus.   
    Julgou-se que esta merecia o primeiro lugar por imperícia dos teatros, porque os poetas se acomodaram a ela, compondo à vontade e sabor dos espectadores. Porém, o prazer que resulta deste gênero  de composição, é muito mais próprio da comédia que da tragédia; porque nela os que são na fábula inimicíssimos, como Orestes e Egistho, se tornaram por fim amigos, e nenhum deles é morto pelo outro.  

                    DE ONDE DEVE NASCER O TERROR E A COMPAIXÃO
      Pode, pois, excitar-se o terror e a compaixão pelo aparato da cena, e também pelo mesmo contexto das coisas,  o que tem o primeiro lugar, e é na verdade de melhor poeta. 
      Porquanto uma fábula deve estar composta de tal maneira, que quem ouvir as coisas que vão acontecendo, ainda que nada veja, só pelos sucessos se horrorize e se compadeça, como experimentará quem ouvir a tragédia de Édipo. 
     Ora, querer conseguir isto pelo espetáculo, é coisa para que não concorre a arte do poeta, e que depende do aparato e do custo da cena. 
    Também se desviam inteiramente da tragédia os que nos oferecem em espetáculo,não coisas terríveis, mas monstruosas; porque não se há de procurar indistintamente na tragédia qualquer gênero de prazer, porém, somente o que é próprio dela. 
     Como pois o poeta deve por meio da imitação preparar-nos aquele prazer, que nasce da compaixão e do terror, segue-se evidentemente, que ele há de se valer para isso das coisas que representa.


BREVEMENTE CONTINUAÇÃO.