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sábado, 12 de março de 2016

PICASSO E SUAS GRAVURAS Por Nicéas Romeo Zanchett

Descanso da Modelo.
Obra de Picasso. 

              Uma das grandes paixões de Picasso era o desenho e gravuras. Sempre foi um ativo participante de movimentos poéticos. Teve a felicidade de viver numa época de efervescência cultural francesa.  Convivia com artistas que buscam algo de novo nas artes. Fez parte da Sociedade dos pintores-Gravadores e chegou a revolucionar a técnica de gravação em borracha. Pode-se até dizer que foi esta sociedade que fez a gravura renascer. 
               Tal como aconteceu com Matisse, Braque e Manet, Picasso foi um dos responsáveis pela revitalização da gravura no início do século XX. Na década de 30, fez uma série de 300 gravuras para livros de poesia editados por Ambroise Vollard. Também criou uma série de gravuras para um catálogo de espécie de animais editado na França por Le Bouffon. 
               O trabalho do artista como gravador sempre foi muito impulsivo. Sua técnica era despojada e, de forma criativa, gostava de experimentar coisas diferente. Registrou todas as fases de sua carreira em gravuras e era um adepto da técnica de água-forte. 
               Goia e Rembrandt foram grandes gravadores, mas a obra do artista espanhol não deixa nada a dever. 
               A gravura é uma arte que tem vida própria. Não é apenas uma reprodução de desenhos. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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Veja também >  OBRAS DE PICASSO
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COMO JULGAR UMA PINTURA Por Nicéas Romeo Zanchett


Pintura acrílica de 
Nicéas Romeo Zanchett 

                a) Não se pode julgar uma obra sem primeiro olha-la atentamente. Observe cada detalhe sem se preocupar com o assunto que ela representa. Uma prolongada observação poderá indicar-lhe como a obra foi concebida. 
                b) Não condene uma obra só pelo fato de nunca ter visto algo assim. A pintura é sempre uma criação e portanto o artista tem o direito de abstrair-se da realidade imediata. Um bom exemplo são as obras cubistas de |Picasso. Muitos odeiam e outros amam e muitos outros não as entendem. Mas, geralmente são oras criadas com muito talento e, portanto, de qualidade. Você pode gostar ou não, mas não pode julgá-la como ruim pelo fato do artista ter usado a cor verde ou outra para pintar uma mulher. 
                c) Um bom tema não é suficiente para uma boa pintura, mas uma boa pintura torna bom qualquer tema. Uma natureza morta pode ser tão boa quanto um nu feminino ou uma paisagem. 
Paisagem de Van Gogh 
                d) Não fique o tempo todo interrogando o que quer dizer isso ou aquilo. Uma obra de arte é como uma sinfonia. Ao ouvir uma bela música você a sente penetrar e atingir suas emoções. Pode gostar ou não. Muitos não gostam das obras clássicas, mas isto não desmerece sua qualidade. Com uma boa pintura acontece a mesma coisa.  A linguagem da música são os sons e da pintura são as cores e formas. 
                e) Gostar ou não gostar de determinada obra não é a questão. Sendo a pintura uma linguagem de comunicação visual, cabe a ela comunicar-se com você, não você com ela. . Portanto deixe que a pintura o absorva e atinja seus sentidos. 
                f) Cada estilo de pintura tem linhas próprias de comunicação. Ao observar as linhas de sua composição verifique se elas se desenvolvem sem muitos acidentes ou se, pelo contrário, são extremamente acidentadas. 
                g) Quando temos uma pintura de estilo coerente, às linhas calmas sucedem-se cores límpidas e espalhadas regularmente na tela. Cores violentamente contrastadas são de linhas acidentais. Isto pode das uma noção do estado de espírito do artista ao concebê-la. Um bom exemplo a ser observado são as obras de Van Gogh em suas diversas fazes. 
                 h) Se na obra houver o "claro-escuro" observe seu equilíbrio. O claro escuro é o artifício utilizado pelos artistas conscientes para dar a sensação de terceira dimensão. Ao claro corresponde a parte que se encontra na luz e ao escuro o lado da sombra. Daí a importância do equilíbrio entre os dois. Em pintores ou estilo que preferem as cores e linhas serenas, geralmente o claro-escuro é pouco visível, e essas pinturas parecem ter pouca profundidade. Isto é normal e, portanto, não desqualifica a pintura. 
Obra de Romeo Zanchett 

Obra de Romeo Zanchett 

Ouro Preto - MG.
             i) É a atenta observação da obra que lhe dirá se o artista deu mais valor aos volumes ou se preferiu dar mais ênfase à cor. No primeiro caso teríamos uma pintura de valores escultóricos e no segundo teríamos uma pintura de vários cromáticos. Diante de uma pintura de valores escultóricos não se pode exibir cores violentas. Da mesma forma, não se pode incriminar um pintor de obras com valores cromáticos por não dar volume às suas figuras. Cada pintura tem sua essência que pode ser criativa ou não. 
              j) Cada época e cada indivíduo tem seu estilo característico. Seria absurdo imaginar todos pintando da mesma forma. Isto acontecia nas obras do antigo Egito que eram copiadas indefinidamente. Se fosse assim não seria arte, criação individual. Se Picasso pintasse como Rafael, um "Picasso" não seria um "Picasso". Cada artista reflete seu próprio mundo, sua época e, portanto, impossível de ser imitado. 
             k) Os artistas sofrem influência de outros artistas. Trezentos anos depois de Rafael Sânzio, Ingres sofreu sua influência ao pintar o rosto de uma moça do século XIX. Ao pintar a nova Madona, Ingres buscou inspiração na pintura renascentista. Isto tudo é muito comum em toda a história da arte. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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veja também 

  

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A ARTE DE MUNCH


Edvard Munch 
Por Nicéas Romeo Zanchett
             Edvard Munch, filho de um médico, nasceu em Löyten, ao norte de Cristiânia, atual Oslo, no dia 12 de dezembro de 1863. Em 1868, com o falecimento da mãe, a tia Karen Bölstad se encarregou de sua educação e iniciação artística. 
             Sua primeira e breve viagem a Paris deu-se em 1885. Na volta, passa uma temporada em Asgaard, na costa de Fiordes da Noruega. 
             Em 1884, Munch expõe sua obra "Madrugada, que refletia certa influência impressionista. Nesta época sua obra voltava-se para diversas áreas de experiência pictórica. O artista buscava seu estilo em diversas formas de expressão. 
             Em 1889 retornou a Paris, onde permaneceu por quatro meses. Foi nessa ocasião que teve contato com os impressionistas e pós-impressionistas. Ficou muito interessado nos trabalhos de Manet, Degas e principalmente Van Gogh. 
             
           Em 1892, já com 29 anos, expõe seu "painel da vida" em Berlim, onde integrou a Secessão local, formada após o fechamento compulsório da mostra. Sexo e angústia são os temas mais salientes desta obra, onde os rostos se tornam lineares, sem uma expressão concludente, e o corpo humano também se sintetiza num traço, um arco de prostração física ou mental. Não é mais um ambiente neutro, mas um prolongamento psíquico do homem, onde a própria paisagem assimila o desespero dos personagens. Nesta ocasião conheceu o colecionador Kollmann, o dramaturgo sueco Strindberg e o pintor polonês Przybyszewski, que lhe dedica um ensaio intitulado "A Obra de Edvard Munch". 
          Em 1894 inicia uma série de gravuras, seguida de litografias. Suas silogravuras apresentam grande influência da obra de Toulouse Lautrec. Nesta época, em Paris, sua obra ainda passava quase despercebida, mas na Alemanha já encontrava grande ressonância. O renovador do teatro berlinense Max Reinhardt confia-lhe os cenários de sua montagem da peça "Os Espectros" de Ibsen que estreou em 1906,
           Completou seus estudos de arte gráfica em paris, principalmente com August Clot.


           Em 1902, em Berlin conheceu Max Linde, que viria a tornar-se seu amigo e mecenas. 


           Em 1906 fixa residência em Weimar, junto ao Conde Keesler, onde faz amizade com Van de Velde e com a irmã do filósofo alemão Nietzche, cujos conhecimentos influenciaram grande parte de sua obra. Na mesma ocasião pinta o seu "Retrato Ideal".  



                Sua primeira crise nervosa ocorreu em 1908. Foi internado na clínica do Dr. Jacobson Copenhaga durante oito meses. O diagnóstico foi uma profunda depressão psíquica. Após estar curado passa a pintar obras mais otimistas, começando com um mural para a Universidade de Oslo. 

                A partir de 1910, Munch passa a viver retirado no campo, primeiro em Ramme, perto de Huitseten, depois fixa residência em Sköten, perto de Oslo. 
                Em 1912 expõe na cidade de Colônia (Alemanha), onde teve grande apoio e repercussão consagradora. Na famosa exposição Sonderbund de Colônia, que oferecia uma visão de conjunto de tendências mais importantes da arte, Munch teve à sua disposição uma sala individual como homenagem a um dos pintores que mais importância tivera para o desenvolvimento da arte nova.
                Em 1916, em busca de tranquilidade e novas inspirações, muda-se para a granja Ekley, em Sköten, nas proximidades de Oslo.  
                No período da Segunda Guerra Mundial, em 1937 é denunciado pelos nazistas que consideraram seu trabalho como "arte degenerada" e então teve algumas obras confiscadas. 
               Com a Noruega sob ocupação alemã, em 1940, se recusa  a aceitar um cargo honorífico oficial. 
               Após executar uma série de auto retratos, falece solitário em Sköyen no dia 23 de janeiro de 1944. 
               Edward Munch é a primeira contribuição da Escandinávia à pintura européia. Sua primeira fase se insere na corrente internacional do Naturalismo. 
               O Expressionismo alemão reconhecia em Munch um de seus legítimos precursores. Uma gravura em cores, "O Grito" é a bandeira desse movimento. Ele centraliza o rosto do homem como fonte de sons e ondas de cor, que se dilatam concentricamente no ar, espalhando o sentimento trágico da vida  e a sensação de catástrofe iminente. Muitas de suas obras isolarão uma só figura num ambiente envolvente. Edward Munch deu à cidade de Oslo todo o seu legado artístico, que se compunha de 1.200 pinturas, 7.500 desenhos, 18.000 trabalhos  gráficos e seis esculturas, além de documentos e escritos, material que se expõe, quase na sua totalidade, no Museu Munch (Munch Museet) da capital norueguesa. 
               Em 2 de maio de 2012, sua obra "O Grito" foi leiloada pelo valor de U$ 107.000.000 (cento e sete milhões de dólares) O dinheiro, segundo promessa, será investido no museu que leva seu nome. 
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Nicéas Romeo Zanchett 




terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O QUE CUSTA O PODER E O QUE TRAZ A FAMA -

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Por Emílio Souvestre - (Um filósofo nas Trapeiras).
                   
              12 de Julho, 7 horas da noite.  - Quando entrava em casa esta noite vi de pé no limiar duma porta um velho que pela atitude e as feições me fez lembrar meu pai; o mesmo sorriso irônico, o mesmo olhar quente e profundo, a mesma nobreza no porte da cabeça e o mesmo abandono de atitude. 
               Isto levou o meu pensamento para o passado. Pus-me a rever os primeiros anos da minha vida e a lembrar-me das conversas desse guia que Deus me deu na sua clemência, e que na sua severidade demasiado cedo me retirou. 
                Quando meu pai me falava não era só para por em contato os nossos dois espíritos por uma troca de idéias; as palavras continham sempre um ensinamento. 
                Não que ele o procurasse fazer sentir! temia tudo que tivesse a aparência de lição. Costumava dizer que a virtude adquiria amigos apaixonados, mas nunca tinha discípulos; por isso não s pensava em ensinar o bem, contentando-se em semear os germes, certo de que a experiência os faria desabrochar. 
                Quanto grão assim caído num canto do coração por muito tempo esquecido, deita de repente a sua haste e dá espiga! Riquezas postas em reserva numa época de ignorância, das quais não conhecemos o valor senão no dia em que precisamos delas. 
                Entre os contos com que animava os nossos passeios ou os nossos serões, há um que me ocorre neste instante à mente, sem dúvida porque chegou a hora de lhe deduzir a lição implícita. 
                Colocado desde os doze anos em casa dum desse negociantes colecionadores que se dão a si mesmos o nome de naturalistas porque expõem a natureza de vidros para vender o retalho, meu pai levara sempre uma vida pobre e laboriosa. Sempre em pé antes do amanhecer, ao mesmo tempo marçano, caixeiro, operário, devia ele só fazer todos os trabalhos dum comércio de que o seu patrão era o único a recolher os lucros. Para se dizer a verdade este tinha uma habilidade especial para fazer valer o trabalho dos outros. Incapaz de produzir qualquer coisa, ninguém sabia vender melhor do que ele; as suas palavras eram uma rede, na qual o freguês se achava preso antes de se dar por isso. Quanto ao mais, só era amigo de si mesmo, considerava o produtor como seu inimigo, o comprador como sua conquista e explorava a ambos com essa inflexível persistência que a avareza ensina. 
             Escravo toda a semana, meu pai não era senhor de si senão aos domingos; o senhor naturalista, que ia passar o dia na casa duma prima velha, dava-lhe então liberdade com a condição que jantaria fora e à sua custa. Meu pai levava secretamente uma côdea de pão que escondia na sua caixa de herborização, e saindo de Paris de madrugada ia internar-se no vale de Montemorensy,  nos bosques de Meudon ou nas margens do Marne.  Embriagado pelo ar livre e pelo cheiro penetrante da seiva em ação e pelo perfume da madresilva, caminhava até que a fome e o cansaço se fizessem sentir; então assentava-se na borda dum matagal ou nas margens dum rio; o agrião, os morangos silvestres, as amoras das silvas ofereciam-lhe sucessivamente um festim rústico. Colhia algumas plantas, lia umas páginas de Florian, que principiava a estar em voga, de Gessner, que acabava de ser traduzido ou de João Jacques de quem possuía três volumes desirmanados. O dia passava-se nestas alternativas de atividade e de repouso, de buscas e de devaneios, até que o sol declinando lhe anunciava que era tempo de retomar a estrada da grande cidade, onde chegava com os pés magoados e empoeirados, mas com o coração para toda a semana. 
              Um dia que se dirigia a Viroflay, encontrou junto ao limite do bosque um desconhecido ocupado a apartar as plantas que acabava de herborizar. Era um homem já velho, de rosto honesto, mas com os olhos um pouco encovados, tendo no olhar qualquer coisa de melancólico e tímido. Vestia um casaco de pano castanho, colete cinzento, calças pretas, meias de lã, e trazia debaixo do braço uma bengala de castão de marfim. A sua aparência era a dum burguês retirado dos negócios e vivendo dos seus rendimentos, um pouco acima da mediocridade dourada de que fala Horácio. 
              Meu pai, que respeitava muito a velhice, cumprimentou-o delicadamente ao passar; mas neste gesto deixou cair uma planta que tinha na mão. 
              O desconhecido ao baixar-se para a apanhar reconheceu-a.
              - É uma Dentaria heptaphillus, disse; ainda não tinha visto nenhuma nestes bosques; o senhor achou-a perto daqui? 
heptaphyllus
               Meu pai respondeu que se encontravam em abundância no alto da colina para os lados de Sévres assim como o grande Laserpitium. 
               - Também! repetiu o velho arrebatado. Ah! vou procurá-las; apanhei algumas outrora para os lados de Robaila... 
               Meu pai propôs-lhe levá-lo lá. O desconhecido aceitou com reconhecimento e apressou-se a juntar as plantas que tinha apanhado; mas, de repente pereceu tomado de escrúpulos; fez observar ao seu interlocutor  que o caminho que seguia era a meia encosta e que se dirigia ao castelo das Princesas Reais em Bellevue; que, atravessando o cimo, por conseguinte do seu caminho, e que não era justo incomodar-se assim por um desconhecido. 
               Meu pai insistiu com a afabilidade que lhe era habitual; mas quanto mais solícito se mostrava, mais obstinado na recusa se tornava o velho; pareceu mesmo a meu pai que a sua boa vontade inspirava desconfiança. 
               Decidiu-se então a só mostrar o caminho ao desconhecido a quem cumprimentou; em breve o perdeu de vista.
               Passaram-se muitas horas e ele já não pensava no seu encontro com o velho. Tinha chegado ao castanhal de Chaville, onde relia o último volume de Emílio estendido na relva duma clareira. Estava tão completamente absorto no encanto da leitura que cessara de ver e de ouvir o que o cercava. Com as faces afogueadas e os olhos úmidos relia em voz baixa uma passagem que o tinha particularmente  impressionado. 
               Uma exclamação dita mesmo a seu lado arrancou-o do seu êxtase; levantou a cabeça e viu o burguês que já encontrara na encruzilhada de Viroflay. 
              Estava cercado de plantas que tinha apanhado, o que parecia tê-lo posto de bom humor. 
              - Mil agradecimentos, senhor, disse a meu pai, encontrei tudo que me indicou e devo-lhe um passeio encantador.
              Meu pai levantou-se,respeitosamente, dando uma resposta afável ao velho. O desconhecido parecia completamente domesticado, e foi ele próprio que perguntou se oseu jovem confrade não tensionava tomar a estrada de Paris. Meu pai respondeu afirmativamente e abriu a sua caixa de lata para lá guardar o livro. 
               O desconhecido perguntou-lhe, sorrindo, se podia sem indiscrição, saber o título do livro. Meu pai respondeu-lhe que era Emílio de Rousseau.      
               O desconhecido tornou-se logo muito sério. 
               Caminharam por algum tempo ao lado um do outro, meu pai expressando com o calor de uma emoção vibrante ainda tudo que aquela leitura lhe tinha feito sentir, e o seu companheiro sempre frio e silencioso. O primeiro gabava a glória do grande escritor genovês, que o seu gênio tinha feito cidadão do universo; exaltava-se falando desse privilégio dos sublimes pensadores que dominam apesar do espaço e do tempo, e recrutam entre todas as nações, um povo de súditos voluntários; mas o desconhecido interrompeu-o de repente. 
               - E tem certeza, disse com doçura, de que Jean Jacques não trocaria essa celebridade que o senhor parece invejar-lhe, pela sorte de um daqueles lenhadores que vivem naquelas cabanas que vemos fumegar além? Para que lhe serviu a fama senão para lhe acarretar perseguições?  Os amigos desconhecidos que os seus livros lhe granjearam contentam-se em abençoá-lo nos seus corações, enquanto os inimigos declarados que esses livros lhe fizeram o perseguem com as suas violências e as suas calúnias! O bom êxito lisonjeia o seu orgulho! mas quantas vezes não foi ferido pela sátira! Creia-o, o orgulho humano parece-se sempre com a sibarita que a dobra duma folha de rosa impede de dormir. A atividade de um espírito vigoroso de que o mundo aproveita, volta-se sempre contra aquele que a possui. Fá-lo exigir mais da vida; o ideal que procura descontenta-o constantemente da realidade; parece-se com um homem que tivesse uma vista demasiado aguda e que visse sempre nos mais belos rostos os sinais da rugas. Não lho falo das tentações mais fortes, das quedas mais profundas. O senhor disse que o gênio era uma realeza! Mas qual é o homem de bem que não tem medo de ser rei? que não sente que o muito poder é, com a nossa fraqueza e os nossos ímpetos, preparar-se para muito errar?  Creia-me, senhor, não admire nem inveje o desgraçado que escreveu esse livro; mas sim lastime-o, se tem um coração sensível! 
               Meu pai, admirado da vivacidade com que o desconhecido pronunciara as últimas palavras, não sabia que responder. Nesse momento chegaram à estrada que ligava o castelo de Meudon ao de Versalhes. Passou uma carruagem; as senhora que iam nela, vendo o velho, deram um grito de surpresa, e debruçando-se repetiam: - É João Jacques! É Rousseau! 
               Depois a carruagem desapareceu. Meu pai estava imóvel, olhos esgazeados, os braços estendidos, estupefato e desorientado. Rousseau, que estremecera ouvindo pronunciar o seu nome, voltou-se para ele.
               - Vê, disse-lhe com a amargura misantrópica que os seus últimos desgostos lhe tinham dado, João Jacques nem mesmo se pode esconder; objeto de curiosidade para uns, de malevolência para outros, e para todos uma coisa pública que se aponta o dedo. E se fosse só sofrer a indiscrição dos ociosos! Mas logo que um homem tem a infelicidade de se criar um nome, pertence a todos; todos investigam a sua vida, contam as suas mínimas ações, insultam os seus sentimentos; torna-se semelhante a esses muros que todos os transeuntes podem manchar com uma inscrição injuriosa. Dirá talvez que eu mesmo animei essa curiosidade publicando as minhas Memórias. mas foi o mundo que me obrigou; espreitava-se a minha casa pelas fendas e caluniavam-me; abri portas e janelas para que me conhecessem, pelo menos, como realmente sou. Adeus, senhor, lembre-se sempre que viu Rousseau para saber o que vale a celebridade. 
              Nove horas. - Ah! compreendo hoje a narração de meu pai! Contém a resposta a uma das perguntas que me dirijo ha uma seman. Sim, sinto agora que a glória e o poder são dons que se pagam muito caros, e que, se fazem ruído em volta da alma, são a maior parte das vezes, como diz Madame de Stael, um luto brilhante da felicidade.
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BREVE BIOGRAFIA
           Emílio Souvestre, foi um literato francês que nasceu em Morlaix a 15 de Abril de 1806 e morreu em Paris  a 5 de Julho de 1854. Formou-se em jornalismo e ganhou fama pelos seus esboços da Bretanha: Les Derniers Bretons; Foyer Breton; Um Philosofhe Sous les Toits, que foi coroado pela academia em 1851. Escreveu também em 1854 uma obra em dois volumes: Causeries Historique et Littetaires e muitas peças de teatro. 
Nicéas Romeo Zanchett  
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             Um verdadeiro amigo dá quando tem de sobra, mas a mulher dá mesmo quando pode lhe fazer falta, porque elas tem o gênio da caridade. 
             Mesmo sendo generoso, um homem só dá o seu dinheiro, entretanto a mulher tem a capacidade de dar o seu dinheiro e seu coração. A caridade feminina renova todos os dias o milagre da bondade, da fraternidade e do amor ao próximo. É por essas e outras mil razões que amo profundamente as mulheres.
Nicéas Romeo Zanchett 


domingo, 5 de outubro de 2014

VAIDADE DA GLÓRIA - Por Montaigne

Narciso 
VAIDADE DA GLÓRIA 
                    Toda a glória que pretendo da minha vida, é tê-la passado tranquilamente, não segundo Metrodoro de Quíos, Arcesilau ou Aristipo, mas segundo eu próprio. Já que a filosofia não soube encontrar nenhum meio para a tranquilidade que fosse bom em comum, que cada um a procure em particular. 
                     A quem devem Cesar e Alexandre essa grandeza infinita da sua fama senão à fortuna? 
                     Quantos homens não extinguiu ela, no princípio das suas carreiras, dos quais não temos conhecimento algum, tendo empregado igual coragem que a daqueles, porque a desgraça da sua sorte os fez parar logo no começo das suas empresas? 
                     Através de tantos e tão extremos perigos, não me lembro que César tenha sido ferido; mil morreram de menores perigos que o menor daqueles que ele venceu. 
                     Inúmeras belas ações se devem perder sem testemunhas antes que venha uma de que se tire proveito; não se está sempre no alto duma brecha, ou na vanguarda dum exército, à vista do general, como sobre o cadafalso; é-se surpreendido entre barreira e o fosso; é necessário tentara sorte contra uma casinhola; é necessário desanichar quatro miseráveis arcabuzeiros duma granja; é preciso desviar-se do grupo e arriscar-se sozinho conforme a oportunidade que se oferece. 
                    E se repararmos bem, vê-se-á, creio eu , que, segundo a experiência, as menos brilhantes ocasiões são as mais perigosas e que nas guerras que tem havido no nosso tempo se tem perdido mais gente de bem nas ocasiões ligeiras e pouco importantes e na tomada de qualquer simples pardieiro, do que em ocasiões dignas e honrosas. 
                    Quem tem a sua morte por mal empregada, se não for numa ocasião assinalada, em vez de ilustrar sua morte, obscurece voluntariamente a sua vida, deixando fugir muitas belas ocasiões de se arriscar; e todas as juntas são bastante ilustres, pois a consciência as patenteia suficientemente.  "Glória nostra est testimonium conscientiae nostre."
                  Quem não é homem de bem senão porque o saberão e o estimularão melhor depois de o saberem, quem não quer fazer bem senão com a condição de que a sua virtude chegue ao conhecimento dos homens, não é pessoa de que se possam aproveitar serviços...
                  É necessário ir à guerra por dever e aguardar esta recompensa que não pode faltar a todas as belas ações, nem mesmo aos pensamentos virtuosos por mais ocultos que eles sejam; é o contentamento que uma consciência bem formada sente em si por bem fazer. É necessário ser valente por si mesmo e pela vantagem que há em ter a sua coragem abrigada numa posição firme e assegurada contra os assaltos da fortuna. 
                  Não é para o público que a nossa alma deve representar o seu papel; é dentro de nós, no íntimo, para onde nenhuns olhos veem senão os nossos; ai ela protege-nos do medo da morte, das dores e da própria vergonha; dá-nos coragem para sofrermos a perda dos nossos filhos, dos nossos amigos e das nossas fortunas; e quando a oportunidade se apresenta leva-nos também aos acasos da guerra, non emolumento alíquo, sed ipsius honestatis decore (não pela esperança de um benefício, mas pela própria honra.) 
                  Este provérbio é bem mais digno de ser desejado e esperado do que a honra e a glória, que não são mais que uma opinião favorável que fazem de nós... 
Miguel Eyquem de Montaigne
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BREVE BIOGRAFIA DO AUTOR 
             Miguel Eyquem de Montaigne, moralista frances, nasceu no castelo de Montaigne em 1533, e lá mesmo morreu em 1592. Fez em Bordeus os seus estudos. Foi conselheiro do tribunal de Bordeus até 1570, retirando-se então para Montaigne, onde escreveu, de 1571 a 1580, os dois primeiros livros dos seus Ensaios, 1580. Fez depois uma longa viagem pela Suíça, Alemanha, Itália, onde visitou Tasso. Durante esta ausência foi eleito maire Bodeus, e desempenhou o cargo de 1581 a 1583. Voltando à vida privada, dedicou-se a acrescentar e retocar a sua obra nos últimos nove anos da sua vida. 
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 14 de setembro de 2014

A RENASCENÇA - Por Eugênio Pelletan

A RENASCENÇA 
Bronzino

  Camões


               O cristianismo tinha pregado à raça do norte, instalada sobre solo ainda virgem, a doutrina da privação, da continência, e involuntariamente, sem pensar, tinha contribuído para desenvolver a economia, e pela economia a riqueza. O homem trabalhava com sentimento da expiação, unicamente porque o trabalho fora o sentimento da expiação, unicamente porque o trabalho fora o anátema  (uma oferenda) que deus  lançara sobre ele à saída do Éden. Obedecia ao castigo, o espírito disposto à mortificação, abafando em si a voz do desejo, como uma provocação do "tentador". 
               O trabalhador levantava a princípio, e apenas do produzido pela sua mão, a parte estritamente necessária à sua existência, e restituía o excedente ao solo como novo meio de produção. A riqueza imobiliária  crescia assim de hora para hora, sucessivamente aumentada pela mão de obra de cada família. A herdade, a quinta, a represa, a fábrica, saem uma a uma da terra, como um segunda  vegetação.  Esta fecundidade, sem cessar aumenta, convidava sem cessar o homem a gozar, pela facilidade de meios ao gosto oferecidos. E, no próprio aumento em que a crença plenamente, completamente aceita, por ele afirmada sem reserva, sem contestação, no mais profundo do seu íntimo, da sua consciência, lhe dizia, lhe gritava por todas as vozes de ar, por todas as pedras do caminho, que o corpo era uma farrapo, o bem-estar um pecado, a felicidade em desafio, o luxo uma blasfêmia, a satisfação dos sentidos uma perdição, ele procurava, apesar da ameaça do dogma, apesar do protesto doloroso da sua própria convicção, apesar do perigo, apesar do interdito da igreja, como empurrado, como precipitado por uma força irresistível, por uma nova revelação, procurava, isto não basta, invocava com paixão o ouro, a seda, a riqueza, o esplendor, a beleza, a eflorescência da carne e a volúpia da sensação. 
                Enquanto a sua alma atrasada, inquieta, suspirava, gemia sob velhos dogmas, úteis um dia e agora enganadores, de decadência e de penitência ele sentia estremecer, transbordar em si uma vida, mais forte do que a sua própria crença. O sinal de regeneração resplandecia por todos os lado. O coração do homem, revolvido de alto a baixo, esperava o milagre precursor da ideia. O milagre falou. 
                 Um homem ia de cidade em cidade, oferecendo aos príncipes da Europa um mundo por um navio. Tinha acuradamente pesado a terra, ao clarão da sua lâmpada, na concha do seu pensamento. Não lhe encontrava o peso que ela devia ter na criação e continuava a machinar (cortar com machim) em silêncio no problema. Observava à tarde, no ocaso, o sol mergulhar na escuma do Mediterrâneo. Onde ia este sublime iluminador do espaço que fugia no horizonte na púrpura da nuvem? Ia visitar com se esplendor uma outra região desconhecida ao nosso olhar? Se a terra era esférica, a lei do equilíbrio assim o exigia. À medida que o grande visionário prolongava, diante do céu apagado, este  interrogatório do gênio do seu próprio pensamento, a sua dúvida interior, sucessivamente esclarecida, tornava,no fundo da sua consciência, uma aparência, uma ralidade. Via ali, na sua frente, nos confins da última estrela, tão seguramente como com os olhos do raciocínio, um continente. Pula, como que levantado por toda a energia elétrica do planeta.  Abre os braços ao espaço e grita: 
                  - Tenho um mundo! 
                   Ouve-lhe o grito o mar e repete-o de vaga em vaga até à margem da Atlântida. 
                   O mendigo dos príncipe vagueia, bordão na mão, levando de corte em corte o continente do seu pensamento. nenhum soberano da Itália quis aceitar esse dom dum sonho, e o profeta do hemisfério atlântico ia bater à porta dum outro reino. Tinha fé na sua visão. Abafava no estreito recinto da nossa geografia. a esperança caminhava-lhe na frente, mostrando-lhe o caminho. Segue-a, a fronte radiante, sem escutar o estupido murmúrio da ironia. Encontra por fim uma mulher, uma rainha, que quis contribuir com seu tesouro para a verificação do seu pressentimento. Dá-lhe ela um navio, e ele parte. 
                  O espírito do progresso, esse conluio universal, involuntário, de conjurados estrangeiros e devotados, sem se conhecerem uns aos outros, tinha já, por um admirável cortesia e uma simpatia admirável, inventando a bússola, esse relógio do espaço que marca a rota dos viajantes na ponta da sua agulha. Conduzido por essa muda assistência que, no fundo do olvido da Arábia, talvez um colaborador incógnito lhe tinha preparado, o ousado aventureiro desfralda a vela ao sopro do mistério. 
                 Dede dias, desde semanas, que a costa lhe tinha fugido para trás. Ia, ia sempre; a vaga vinha e passava; o vácuo ressurgia do vácuo ao seu olhar; o sol nascia nascia e morria sobre a mesma incerteza. A equipagem, diante da imensidade, duvida duma margem. E julgando que o mundo ia faltar, quis forçar o conquistador de um enigma a reconsiderar a sua temeridade. Mas ele, invencivelmente confiado no seu sonho e por todos os lados envolvido pela nada, deixava que o vento de Deus lhe impelisse a nave, e observava o horizonte.  A terra estava ali, no fim do seu dedo; via-a, podia mostrá-la. 
                 E uma manhã, - a natureza tinha trajado nesse dia as suas vestes de gala, como para um grande dia da humanidade, - o intrépido navegador, viu de súbito surgir da escuma, à proa do seu navio, a terra do seu sonho, ornamentada da palma do trópico, sorridente no esplendor da manhã. A sua noiva tinha sacudido, à sua aproximação, o ramalhete umedecido de orvalho e parecia vir para ele num eflúvio perfumado. Reconheceu-a: tantas vezes a tinha visto na meditação das suas vigílias! Deixa escapar a cana de leme e cai, fulminado, de joelhos sobre o tombadilho. A carne era muito fraca para suportar uma alegria do espírito.
                Tinha aberto à sua pátria adotiva a porta da riqueza. A Espanha fora às pressas sobre seus rastos amontoar o ouro na esteira do sol. Quando Deus quer atrair a civilização para uma região, esconde ali  um tesouro. O eterno Argonauta do progresso transpõe o abismo para conquistar o misterioso velo. A Espanha fora a primeira a Espérida,  cujo brilho tentador chamava a humanidade para o ocidente. Mas no dia em que a civilização invadiu a Europa, a Espérida,  sacudindo a sua dourada, tomara o voo, e desaparecera do outro lado do mar, no crepúsculo do ocaso.  A Espanha tinha-a perseguido por sua vez a tornara a encontrá-la num vale das Cordilheiras. A Espérida  de novo fugira, passado quatro séculos, para enigmar as margens de outro mar, em frente a Ásia. Mensageira mística da caravana do progresso, é ela que lhe indica o seu caminho no espaço. 
                 O ouro é o único sedutor assas poderoso para arrancar o homem ao seu lar, e exitá-lo à expatriação. Oferece, com efeito, ao colono uma riqueza imediata que reembolsa em pouco tempo ao décuplo  o adiantamento da emigração; para as primeiras despesas de transplantação da raça civilizada ao meio da raça ainda mergulhada na barbaria, e acumula a população espalhada à roda da cratera hiante das suas minas. Semeia aqui e ali centros de produção ou de permuta; promove em fim, em toda a extensão vigorosa e multíplice da palavra colonização. 
                 O tesouro escondido no México serviu, pois, imensamente à humanidade, menos por ele propriamente, menos pela sua barra que pela sua influência e pela sua atração. Convidou e deteve a raça européia América. 
                 Essa raça poderosa, munida de todas as armas da civilização, arrancou desta natureza virgem, de entranhas ardentes, uma vida nova, nova embriaguez. Deitou o homem na sua taça a seiva de outra vegetação, e bebeu o aroma de outro sol. Revestiu-se de esplendores e colheu essências desconhecidas à sua primeira pátria. Enriqueceu o seu poder de ser, a sua gama de sensação, de toda a volúpia, de toda a utilidade que a baunilha, a cana de assucar, a seiva luxuriante do trópico, espalham hoje à roda dele, sobre ele, à sua mesa, no seu festim, á sua cabeceira. Já Vasco da Gama tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança e, pelo lado aposto, atingido a Ásia, pela grande etapa do oeste. Assim a Europa tinha, ao mesmo tempo, os dois continentes vencidos, e presos às âncoras dos seus navios. Ela reverterá mais tarde sobre a América a quente ambrosia da Ásia, a especiaria e o café, para que a fibra do homem do Norte, aquecida à chama e banhada da eletricidade do "meio dia", mais simpática, mais vibrante à sensação, absorva e repercuta na atmosfera mais entusiasmo e mais gênio. 
                  Algum tempo depois outro profeta, um outro Titan revoltado contra a debilidade da nossa natureza, ia visitar Deus e roubava-lhe o segredo da criação. Inventava o telescópio, dava ao homem um sentido a mais, que via o que o olho carnal nunca tinha visto: a imensidade escondida por detrás da imensidade. Ao primeiro olhar do homem que acometia o céu abate a abóbada dos velhos tempos. A estrela, surpreendida na nudez, recuo no espaço a séculos de distância. O espírito da terra sobe à altura a que ainda não chegara o voo do anjo. Calcula o Éter, um milhão de vezes acumulado sobre o Éter, o prodigioso e brilhante limite que Deus colocara no caminho do infinito. 
                  Assim, à medida que Cristóvão Colombo estendia sob nossos pés o espaço do globo, Galileu, por uma admirável correlação, desdobrava sobre a nossa cabeça o espaço do firmamento. Executavam um e outro o mandado do progresso; conduziam a humanidade mais para diante na imensidão. Mas o novo Prometeu, que tinha conquistado mais do que a chama, que tinha conquistado a luz, que tinha dito à terra: "Move-te!" com o escândalo da Escritura, tinha desafiado o poder, de aí por diante surdo, cego, esgotado com a sua obra e amortalhado no seu progresso.  Mas devia espiar a temeridade. O velho dogma lança-lhe a mão e arrasta-o, enfraquecido pelo peso da sua glória,até ao limiar duma igreja. Com mão brutal curva-lhe a fronte na poeira e obriga-o, com a força do braço, a renegar e revelação visível de Deus vivo. E aquele que era então entre todos o maior, balbucia, os dois joelhos em terra, a rejeição da sua própria grandeza. Logo que a terra ouviu esta injúria à criação, um monge colocou uma mordaça na boca do sábio, para impor o silêncio a este gênio ainda cheio de verdade. Tinha escolhido bem o suplício: o silêncio para um semelhante confidente da eternidade devia ser com efeito o mais cruel castigo. 
                   A razão humana, a ciência, iam perecer sob a polícia do papado conjurada com o poder secular para recalcar toda a nova expansão da verdade, se um obreiro, um desconhecido perdido na sombra da multidão, não tivesse tido a ideia de dispor cada letra do alfabeto num grão de metal. Logo que um pensamento acabava de surgir no mundo, sobre uma folha de papel, o operário revolvia a poeira da palavra que fundia no seu cadinho, e, pela misteriosa química da sua inteligência, transformava a letra de mão em letra de ferro, e recompunha o manuscrito sobre chassis.  Colocava em seguida o chassis sobre um cilindro, e reproduzia a cada pancada da prensa tantas vezes o pensamento de um só quantos escritos havia capazes de o compreender no mundo das inteligências. 
                 A ciência, até então trabalhosamente transcrita sobre velino, de dispendiosa mão de obra, fora unicamente a distração, a volúpia suntuária das corporações e das aristocracias. Só podia pensar em comunicar com os séculos, o que era assaz independente pela sua fortuna para adquirir uma biblioteca, porque uma biblioteca representava então a existência de muitas famílias.  
                  A imprensa  resgata esta desigualdade, esta iniquidade do destino, entre filhos dum mesmo espírito, igualmente nascidos para a ciência. Ao mesmo tempo que a economia, sempre crescente, metia na mão de cada homem a riqueza acumulada dos seus antepassados, Gutemberg metia na outra mão o gênio tradicional da história. Lançava do chofre da alma do mais humilde servidor da ideia a alma inteira da humanidade; reconduzia toda a parte de eternidade, deixada para traz no fundo do passado, sobre cada fronte pendia no estudo; abria ao mesmo tempo um imenso auditório, um auditório instantâneo, à ciência e à inspiração.
                 Em qualquer lugar em que a voz humana falara para todos, a imprensa tomava essa palavra, quente ainda do sopro do lábio, vazava-a no molde, multiplicava-a sem conta, e lançava-a ao mundo como a folha da Sibila. Não havia sob o sol um pensamento escrito, manifesto, que não recebesse logo a repercussão em simpatia, em admiração, em refutação ou em contradição. Arrebatada pelo vento do espaço até onde podiam chegar os passos do homem, provocava indefinidamente na sua passagem a concorrência e colaboração  universal da humanidade. Todo o homem falava ao mesmo tempo por toda a parte, o gênio respondia ao gênio, o relâmpago pedia o relâmpago, a verdade explodia na imensidade. Nenhuma ideia tinha tempo de dormir.Sempre de pé, sempre errante através das nações, pregava, convertia sempre. A atmosfera inteira estava cheia duma perpétua palavra que ia e vinha infatigavelmente, duma a outra fronteira. O Cristianismo tinha fundado na Europa a unidade da crença, a imprensa funda a unidade da razão. 
                   A glória deixou de conhecer a incerteza da espera, quebrou a prisão do isolamento, viu com os seus olhos a impressão contemporânea de sua obra, assistiu em vida à sua posteridade, faz convergir sobre ela a admiração do povo pela confiança no seu trabalho, aumentou o gênio pela certeza do seu gênio, ainda nesta vida pôs um pé na eternidade, pôde morrer sem temer a mordedura do tempo sobre o seu pensamento. O seu pensamento multiplicado ao infinito, e gravado como sobre bronze, desafiava de aí em diante todos os cataclismos; porque vive amoedado em mais parcelas do que a inteligências. Para destruir, a mão do homem teria de reavê-lo de cada nação, molécula por molécula. O mesmo valeria retomar a gota à água do Oceano. O espírito de morte ainda o não tentou. 
                  A imprensa liberta a razão humana da tutela da Igreja, inaugura no mundo a democracia do conhecimento, nivela o sacerdócio interior do pensamento, faz de todo o olhar elevado ao céu um testemunho da Divindade, entrega a cada homem o cargo da sua própria crença e transforma a humanidade numa vasta escola, numa reciprocidade de ensino, onde todos, humildes e poderosos, trazem e levam uma convicção. Comunhão sagrada de alma com alma, através do tempo, através da distância/ carne incorruptível da ideia eternamente servida a todos no banquete da verdade, um dia chegará, não o duvido, em que o homem, mais adiantado, e mais reconhecido, inscreverá religiosamente a tua festa no eucológio do progresso e cantará cada ano o Te Deum da tua vitória sobre o espírito das trevas! A imprensa tinha dominado a ignorância, mas nenhuma potência tinha ainda podido submeter o despotismo esparso do feudalismo. Refugiada e barricada na sua torre, sobre o cimo do rochedo, a raça conquistadora, sempre soberba, deixava o fluxo dos exercícios bater inutilmente na base da sua muralha. Do alto dos seus castelos, tão numerosos como as colinas, tão altos  como a região das águias, desafiava o arco e o ariete, inacessível e sempre pronto a fulminar como raio na nuvem.  A força reunida da população, acumulada em dado momento contra ele, não era ainda bastante para deitar por terra esta pedra de opressão que pesava sobre cada vale. Mas, enquanto o senhor dormia, com o seu orgulho, embalado pelo ruído do vento, um humilde monge triturava na sombra o enxofre e o carvão para distrair os ócios da cela; amassava no fundo da sua escudela um punhado desta poeira, aproxima-se-lhe a chama, e a escudela voa em estilhas. Tinha achado, ou pelo menos demonstrado, recreando-se de quebrar a montanha. Meteu na mão do homem o poder do raio, e um dia o barão ouviu na planície uma surda detonação.  Um relâmpago demorado, que parecia sair das entranhas da terra, ia feri-lo sobre seu rochedo; sentiu a torre estremecer com o estampido, oscilar, inclinar-se um instante e abater pela base. O dominador, surpreendido e vencido na ostentação da sua inviolabilidade, na sua invulnerabilidade, lança ao espaço uma derradeira blasfêmia, e desaparece no abismo, sob a ruína do seu castelo. 
                   Alguns séculos depois, restava apenas deste mundo de terror, que por tanto tempo tinha pesado sobre a França com o peso dos seus baluartes, uma torre meio desmantelada, para testemunhar ainda o passado.  Essa torre, suspensa sobre o abismo, cascata móvel, caía pedra a pedra no fundo do barranco. A hera envolvia-a numa fúnebre roupagem trêmula em que gemia um lamento eterno. De tempos a tempos, um falcão, calvo e fatigado de viver, vinha terminar o voo sobre a última ameia, e aí, inclinado sobre o espaço, a asa meio aberta, o pescoço estendido,
chamava com um melancólico grito o vento que já o não podia manter. 
                   O feudalismo e a ignorância estavam dispersos, varridos no mesmo dia, pela mesma vontade. A pólvora do canhão tinha nivelado o território; a imprensa igualara o espírito. O mundo moderno nascia; a democracia já se agitava. Um homem iria breve escrever: "Penso, logo existo!" e proclamar com uma palavra a soberania da razão. 
                  A viagem terminou e o viajante pôde dizer consigo: bendigo deus emfim. O mundo está salvo. Vou aqui levantar a minha tenda. Vou repousar um instante. O progresso está demonstrado. Ah! bastante vezes maldisse o comprimento do caminho. Sentia, falando, uma dúvida murmurar surdamente sob a minha palavra, no fundo da minha consciência. Dizia-me essa dúvida: Tu queres justificar a civilização e justificas a injustiça. Aceitas sucessivamente diante da história a casta, a escravidão, a gleba, a servidão; aprovas sucessivamente o feiticismo, o panteísmo, o politeísmo, o judaísmo, o cristianismo; tens uma desculpa mais ainda, verdadeiro reconhecimento por cada iniquidade, por cada erro que tu,mais tarde, reconheces ser um erro e uma iniquidade."
                  A esta dúvida, eis o que a experiência responde: "Todo o problema da história é uma questão de ótica. Se o historiador, verdadeiro espectador do passado, se vai colocar no ponto d partida, e observa em seguida a humanidade, débil, de certa maneira animal, mergulhada na última servidão da estação, da fome, da doença, então compreenderá, bendirá toda a outra forma de escravidão menos perigosa, menos  custosa, que permite ao homem amontoar no seu caminho mais conhecimentos e mais liberdade. Se se coloca, ao contrário, no ponto de chegada da humanidade ajuíza de todos os períodos anteriores, e por conseguinte inferiores da civilização, segundo as últimas conquistas e as últimas transformações da história, falseia o juízo, julga o bem depois, do melhor, calunia necessariamente o passado, sempre condenado a ser alternativamente bem ou mal; bem quanto a este momento; mal com respeito àquele outro. Depois queremos ser justos, devemos dizer: toda a forma que tende a criar um progresso deve ser bendita à hora desse progresso; toda a forma que, depois de ter criado um progresso, desaparece abolida pelo próprio progresso, é, de aí em diante digna de reprovação." 
Pedro Clemente Eugênio Pelletan 
    


BREVE BIOGRAFIA de Eugênio Pelletan 

             Pedro Clemente Eugênio Pelletan, escritor e político francês, nasceu em Saint-Palais- sur-Mer em 1813, e faleceu em em Paris em 1884. 
             Logo que chegou a Paris colaborou em vários jornais; em 1864 foi eleito deputado e depois reeleito em 1869.  Em 1870 foi membro do "Governo da Defesa", e continuando a sua carreira política, foi nomeado senador em 1884. Publicou, entre outras obras: Profession de foi do XIX siecle, em 1852; Le monde marche, 1857; Les Droits de l'Homme, em 1858; La famille; La Mère, em 1865; Le Grand Fredéric, em 1878, etc. 
Nicéas Romeo Zanchett 





sábado, 9 de agosto de 2014

A ARTE DA COMPOSIÇÃO LITERÁRIA - LONGINO


A ARTE DA COMPOSIÇÃO LITERÁRIA 
                 Mas visto que os sentimentos e a linguagem das composições literárias melhor se explicam pela luz que umas sobre as outras lançam, consideremos agora o que resta dizer com respeito à "Dicção". E neste ponto não se pode, creio, negar que uma escolha judiciosa de termos aptos e magníficos é sobremaneira própria para obter e manter a atenção de uma assembléia. 
                 Porque é disto que os grandes autores tiram com escrupuloso cuidado a grandeza, a beleza, a solenidade, o peso, a energia e a força das suas expressões. Isto veste uma composição literária do mais belo traje, fá-la brilhar como um quadro em toda a alegria da cor, e, numa palavra, anima os nossos pensamentos e dá-lhes uma vida como que vocal. Mas é desnecessário demorarmo-nos neste ponto diante  de pessoa de tanto gosto e experiência. As palavras belas são na verdade a luz especial com que devem brilhar os nossos pensamentos. Mas de modo algum é próprio que em toda a parte sejam túmidos e pareçam grandes. Porque vestir um assunto trivial de expressões grandiosas e grandiloquentes faz o mesmo efeito ridículo que faria a enorme mascara dum ator trágico no rosto pequeno de uma criança. 
                  .... (O princípio desta seção perdeu-se, lamentavelmente)... Neste verso de Anacreonte, os termos são banais, mas há nele uma simplicidade que agrada, porque é natural:  
Nem este Trácio me ralará!
                  E por esta razão me parece aquela celebre expressão de Teopompo, uma das mais significativas que tenho visto conquanto Cecílio nela encontre que censurar: "Felipe, diz ele, costumava engolir injúrias quando as exigências da sua política o tornavam conveniente."
                  Os termos banais são às vezes muito mais expressivos do que poderiam ser os mais escolhidos. Facilmente se compreendem porque tirados da nossa vida quotidiana; e o que nos é mais familiar, mais depressa obtém o nosso assentimento. Portanto, quando um indivíduo, para conseguir os seus fins ambiciosos, suporta injúrias e responde não só pacientemente, mas em aparência mesmo agradavelmente, dizer que ele  engole injúrias é uma das frases mais aptas e expressivas que se podem inventar. O seguinte trecho de Heródoto aproxima-se muito, a meu ver, do efeito do outro: " Cleomenes, sendo tomado de loucura, cortou com uma faca a sua carne em pedaços, até que,tendo retalhado o corpo completamente, morreu."  E, noutro ponto, Pites, tendo ficado no navio, lutou corajosamente, "até que o fizeram em pedaços." Estas expressões são quase banais, mas a sua significação está longe de o ser. 
                 Quanto ao número de metáforas que se deve usar, Cecílio é da opinião daqueles que acham que se não devem usar mais de duas ou tês na expressão do mesmo assunto. Mas nisto também seja Demosthenes o nosso guia; lendo-o, veremos que a ocasião de as empregar é quando as paixões estão tão desencadeadas que avançam como torrente, arrastando toda uma multidão de metáforas. 
                 "Essas almas prostituídas, esses traidores agachados, essas fúrias da República, que se combinaram para ferir e retalhar a sua pátria, que sorveram a sua liberdade em saúdes, primeiro a Felipe e depois a Alexandre, medindo a sua felicidade pela sua gula e pela sua luxúria. Quanto àqueles grandes princípios de honra e àquela máxima de nuca suportar um senhos, que eram para os nossos valorosos maiores a alta ambição da vida e a norma da felicidade - a esses subverteram eles completamente." 
                  Aqui por meio desta abundância de tropos, desencadeia o orador sobre os traidores o fervor da sua indignação. É porém preceito de Aristóteles e de Theofrasto que que as metáforas arrojadas devem ser de ligeiras atenuantes, tais como, se assim posso dizer, e por assim dizer, e se me posso exprimir com esta audácia.  Porque esta desculpa preliminar atenua muito, dizem eles, a violência dos tropos. 
                  Esta regra será boa para uso geral, e por isso a admito; mas continuo a sustentar o que antes disse com respeito a figuras de retórica; que metáforas arrojadas, e essas também em abundância, não são deslocadas numa composição literária nobre, onde constantemente as mitiga e atenua a veemência patética e sublimidade generosa dispersas pela composição  total. Porque, como é de natureza do patético e do sublime, o correr rapidamente, arrastando tudo, exigem que as figuras que os expressãm sejam enérgicas e incisivas, e não dão a um ouvinte o tempo preciso para poder ser crítico da sua multiplicidade, porque diretamente lhe ferem a imaginação e lhe comunicam a veemência e a energia. 
                  Admita-se de momento a possibilidade dum escritor impecável e acabado, e então valerá a pena examinar na generalidade este ponto importante; se, em poesia ou prosa, o que é verdadeiramente grande de mistura com alguns defeitos valerá mais do que o que, nada tenho de extraordinário nos seus melhores trechos, é contudo inteiramente correto e sem defeito? E, mais, se a excelência do bem-escrever consiste o número das suas belezas ou na grandeza dos seus rasgos? 
                   De bom grado admito que os escritores de um gênio alto e dominador nem sempre são puros e corretos, visto que o que é de princípio ao fim acurado e polido deve tender extremamente a ser chão. No sublime, como numa afluência demasiado rica, alguns pormenores menos importantes escaparão inevitavelmente à observação. Mas é quase impossível a um engenho chão o cair em erro, visto que nunca a isso se arrisca, voando alto ou tentando ser sublime, visto que continua sempre no mesmo caminho uniforme e seguro, ao passo que a própria grandeza e arrojo do sublime expõe a quedas súbitas. Nem ignoro ainda outra, a qual sem dúvida objetarão, e é que ao criticar as obras dum autor, sempre notamos as suas imperfeições, de modo que a memória dos seus defeitos perdura no espírito, ao passo que a das suas qualidades depressa se nos esvai.  Quanto a mim, tenho tomado nota de não poucas imperfeições de Homero e de outros dos maiores autores, às quais não posso ser cego; tenho-as, porém, não por defeitos voluntários, mas antes por lapsos causais acontecidos por inadvertência; tais com os que, quando o espírito está entregue a assuntos de natureza elevada, insensivelmente penetram nas composições literárias. E por isto dou como minha opinião final que os rasgos grandes e nobres, conquanto não ostentem uma perfeição igual, devem ainda assim levar a palma, pelo único mérito da sua grandeza intrínseca. 
                   Apolônio, autor da Argonáutica, era um escritor impecável; e ninguém escreveu melhores pastorais do que Theócrito, excetuando algumas composições  em que ele se desviou do seu gênero. Mas apesar disso tudo, preferireis se Apolônio ou Theócrito a ser Homero? O poeta Eratósthenes, cuja Erigona é uma composição completa e mimosa e sem um único defeito, deverá ser considerado superior como poeta a Archiloco, que tem muitas e arrojadas irregularidades, um espírito divino arremessando-se na sua nobre carreira, um espírito que se não dobra às regras nem facilmente se deixa inibir? Na lírica, querereis antes ser Bacchylides do que  Píndaro ou Io de Chios do que o grande Sófocles?  Bacchylides e Io escreveram suave, mimosa e corretamente, nada deixaram que não fosse polido; mas em Píndaro e Sófocles, que levam fogo consigo pela rapidez do seu movimento, esse próprio fogo muitas vezes se lhes apaga, e então caem misevavelmente. Mas tenho a certeza de que não há ninguém de gosto que hesite em preferir o simples Édipo de Sófocles a tudo quanto Io escreveu. 
                  Se as excelências dos autores tem de ser apreciadas pelo seu número, e não pela  sua qualidade ou grandeza,  então Hiperides tem de ser considerado muito superior a Demosthenes. Tem mais harmonia e melhor cadência, um maior número de belezas e estas de um grau quase excepcional.  Parece um campeão que, tendo-se feito senhor dos cinco exercícios, em cada um deles deve ceder a outrem a primazia, mas em todos juntos permanece único e sem rival. Porque Hiperides em tudo, exceto na estrutura das palavras, imitou as qualidades de Demosthenes, juntando-lhe a beleza grandiosa de Lísias. Quando o seu assunto exige simplicidade, o seu estilo é extremamente suave; nem dá expressão a tudo com a mesma ênfase veemente do que Demosthenes. Os seus conceitos são sempre justos e apropriados, temperados por uma doçura deliciosa e suave harmonia de palavras. Os seus ditos de espírito são  inconcebivelmente finos. Provoca o riso com uma arte magistral e é grande a sua destreza na ironia ou no escarno. O seu modo de motejar está longe de ser grosseiro, nem é nunca excessivo como o dos imitadores degenerados da concisão atica; é, pelo contrário, natural e próprio. Que arte não tem em fugir a um argumento! Com que graça ridiculariza, e com que destreza fere em meio de um sorriso! Numa palavra, há uma graciosidade inimitável em tudo o que diz. Nunca ninguém com mais arte comoveu; ninguém houve mais difuso na narrativa; ninguém mais hábil em abandonar e retomar um assunto com tanta facilidade e sutileza. Vê-se isto claramente nas suas pequenas fábulas poéticas de Latona; e, de mais a mais, compôs uma oração fúnebre cuja pompa e ornatos creio que nunca foram nem virão a ser ignorados. 
                    Demosthenes, pelo contrário, não foi bem sucedido na descrição das tendências e caracteres dos homens; a eloquência difusa era-lhe desconhecida; desajeitado na sua apresentação; falho de pompa e de esplendor na sua linguagem; e, numa palavra, deficiente na maioria das qualidades que caracterizam Hiperides. Onde o assunto o obriga a ser alegre ou jocoso, faz rir com efeito, mas é dele. E Quanto mais se esforça por gracejar, mais longe está de o fazer. Se alguma vez tivesse tendado um discurso a favor de uma Frine ou de um Atenógenes, essas tentativas só teriam feito dele um péssimo exemplo para Hiperides. 
                  E, apesar de tudo, a me ver, as numerosas belezas de Hiperides estão longe de ter qualquer grandeza intrínseca. Mostram a sobriedade serena do engenho do autor, mas não tem alma nem para animar nem para entusiasmar uma assembléia. Ninguém que o leia se sente tomado de qualquer emoção extraordinária. Ao passo que Demosthenes, juntando a uma constante grandeza de inspiração e magnificência de frase (as maiores qualidades de um orador) tais rasgos de paixão, tal cópia de palavras, tal rapidez no falar; e, o que constitui o seu gênio especial, tal energia e veemência com os maiores autores não ousaram aspirar a atingir; tendo, repito, em abundância todas estas qualidades divinas (seria pecado chamar-lhe humanas), - excede a todos que o precederam, em belezas que lhe são próprias; e para compensar as deficiências nas qualidades que não tem, vence todos os adversários pela força irresistível e relampaguear deslumbrante da sua eloquência. Porque é mais fácil ver com olhos firmes e não deslumbrados o clarão do relâmpago do que aqueles rasgos ardentes do patético que tão rapidamente se sucedem nas suas orações. 
                   O paralelo entre Platão e os seus adversários deve ser feito de um ponto de vista diferente. Porque Lísias não só lhe é inferior na excelência geral, mas também no número das suas belezas. E, o que é mais, não só fica aquém dele no número das suas belezas, mas excede-o de muito na quantidade dos seus defeitos.   
                  Que devemos nós supor, portanto, que tinham em vista aqueles escritores divinos que tanto se empenharam em levantar as suas composições ao mais alto ponto do sublime, e olharem com desprezo para a correção? Entre outras, aceite-se esta explicação. A natureza nunca tencionou que o homem fosse um animal rastejante e acanhado, mas trouxe-o para a vida e colocou-o no mundo como num teatro apinhado, não para ser um espectador ocioso, mas levado por sede ansiosa de vencer, para lutar ardentemente pela posse da glória. Para este fim lhe pôs ela na alma um amor invencível da grandeza, e um constante rivalizar com o que mais ele parece aproximar-se da divindade. É por isso que todo o universo  não basta para o alcance enorme e especulação penetrante do entendimento humano. Passa os limites do mundo material e gostosamente se lança pelo espaço infinito. Que cada um de vós examine de perto uma vida que em cada cena seja notável pela sua grandeza, beleza, excelência, e breve perceberá os nobres fins para que nascemos. Assim, o impulso natural faz com que admiremos, não o regato pequenino e transparente que nos mata a sede, mas o Nilo, Ister, o Rheno, ou, muito mais ainda, o Oceano. Nunca nos causa surpresa o pobre lume que arde claro e se apaga na nossa lareira, mas assombra-nos os fogos celestes, conquanto muitas vezes os obscureçam as nuvens e os eclipses.  Nem há nada na natureza que mais nos maravilhe do que as fornalhas ardentes do Etna, que vomitam pedras, e às vezes rochedos inteiros, do seu abismo laborante, e espalham rios inteiros de chama líquida e una. E disto podemos concluir que quando é útil e necessário ao homem está ao nível do seu alcance e facilmente se obtêm; mas tudo quanto excede o tamanho vulgar é sempre grandioso e sempre assombra.  
                  Com respeito, portanto, àqueles escritores sublimes cujo voo,  por alto que seja, nunca perde a sua utilidade e vantagem, temos outra consideração a acrescentar. As belezas de ordem inferior mostram que os seus autores são homens, mas o sublime aproxima-se de Deus. O que é correto e impecável apenas escapa à censura, mas o grande e sublime provocam a admiração. Que mais terei para dizer? Um sentimento elevado e sublime naqueles nobres autores compensa amplamente todos os seus defeitos. E o que é mais notável é que se os erros de Homero, Demosthenes, Platão, e outros dos mais célebres autores, se coligissem, nem de longe o seu número se aproximaria daquelas excelências infinitas e inimitáveis que são tão patentes neste heróis da antiguidade. E é por isto que todas as épocas e todas as gerações, imparcialmente tem concedido a estes grandes estes os louro que ainda estão verdes e imarcescíveis nas suas fontes. 
                  Certo escritor objeta neste ponto que um colosso mal esculpido não vale uma  estatueta impecável, por exemplo, o soldado de Policleto; mas mas a resposta a isto é evidente. Nas obras de arte olhamos às proporções exatas; nas da natureza  à grandeza e à magnificência. Ora, a linguagem é um dom que a natureza nos fez. Portanto, assim como a semelhança e a proporção em vista dos originais são precisas nas estátuas, assim na nobre faculdade de falar deve haver qualquer coisa de extraordinário, qualquer coisa de mais que humanamente grande... (O primeiro da seção sobre hipérbole perdeu-se). Esta hipérbole, por exemplo, é extremamente má: " Se não lavares os miolos nas solas dos pés e os pisares." Temos sempre de atender, portanto, a uma consideração: até que ponto pode o pensamento ser levado com propriedade. Porque ir além daquilo que é próprio, muitas vezes estraga a hipérbole; e o que é esticado de mais, relaxa-se e perde o tom; mais, produz por vezes um efeito contrário ao que se queria obter. Assim, Isócrates, infantilmente desejoso de não dizer nada sem exagero, deu em puerilidade vergonhosa.  O fim e objeto do seu Panegirico é provar que os atenienses foram maus uteis à Grécia em geral do que os espartanos; e eis como ele principia: "A  virtude e eficiência da eloquência é tão grande que pode tornar despiciendas as grandes coisas, vestir os assuntos triviais com pompa e ornamento, dar um traje novo ao que é velho e obsoleto e dar a coisas recentes um ar de antiguidade." Quem não perguntará imediatamente: É isso o que ides fazer com respeito aos atenienses e espartanos?  Porque este descabido encomio da eloquência é uma advertência insciente aos ouvintes para que não o escutem ou não lhe deem crédito. 
                  São melhores, em resumo, aqueles hipérboles (como já antes observei das imagens) que não tem a aparência nem o aspecto de hipérboles.  E esta é sempre a natureza daquelas que, no calor de uma paixão, aparecem no meio de um assunto de monta. Assim Thucidides aplicou com destreza um hipérbole aos seus compatriotas que morreram na Sicília. "Os siracusanos, diz ele, desceram sobre eles e trucidaram especialmente os que estavam no rio. A água imediatamente tinta de sangue. Mas estar o rio sujo de lama e sangue não evitou que eles o bebessem ávidamente, nem que mutos deles lutassem desesperadamente para chegarem à água." Uma circunstância tão rara e comovente dá à quelas expressões de beber lama e sangue, e lutar desesperadamente para beber, Um ar de probabilidade. 
                   As hipérboles são, literalmente, impossibilidades, e portanto só podem ser razoáveis ou produtoras de sublimidade onde as circunstâncias admitem o exagero, para que possam sempre parecer importantes e grandiosas.  
                   Heródoto usou uma hipérbole idêntica com referência à queles guerreiros que caíram na Thermópilas: "Neste ponto se defenderam com as armas que lhes restavam, e com unhas e dentes, até ficarem soterrados sob as setas dos bárbaros." 
                 Será impossível, perguntais, que homens se defendam a dente contra a fúria de adversários armados? Será possível que homens possam ser soterrados por setas? Mas, apesar de tudo isto, há no caso uma sombra de probabilidade. Porque não é a circunstância que parece ter sido adaptada à hipérbole, mas a hipérbole parece ser resultado  inevitável da circunstância. Porque a aplicação destas figuras apenas onde o calor da ação ou a impetuosidade da paixão as exige (ponto que nunca deixarei de insistir) bastante atenua a mitiga a audácia de expressões demasiado arrojadas. O mesmo se dá na comédia, onde circunstâncias de todo absurdas e incríveis ficam muito bem, porque estão de acordo com seu fim, que é provocar o riso. Sirva de exemplo este trecho: "Ele possui um bocado de terreno do tamanho de uma carta espartana." Porque o riso é uma paixão que nasce de qualquer  íntimo prazer. 
                   Mas as hipérboles servem geralmente para dois fins: aumentam e diminuem. Levam qualquer coisa além do seu tamanho natural em ambos os casos. E a força de expressão (a outra espécie de hipérbole) aumenta a baixeza de qualquer coisa, ou acentua a trivialidade das coisas triviais. 
BREVE BIOGRAFIA DE "LONGINO". 
               Dionísio Cássio Longino, o primeiro retórico, crítico e expositor de filosofia do seu tempo, e tido por alguns como o melhor crítico da antiguidade, nasceu, provavelmente na Síria, no ano 203 da nossa era. Foi discípulo de Orígenes em Alexandria, e estabeleceu-se em Atenas como professor de literatura e oratória, ganhando uma enorme fama, não só como uma viva enciclopédia, mas também pelas suas faculdades de intuição e de crítica. No fim da vida foi preceptor dos filhos de Zenóbia em Palmira, e o seu principal conselheiro político; derrotada ela por Aureliano, foi condenado à morte com traidor. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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